segunda-feira, fevereiro 01, 2016

sobre ana paulas e patricias



Quando falamos de preconceito, sempre aparece um Dalai Lama pra botar panos quentes "que isso, não foi preconceito, é coisa da sua cabeça". Só quem é negro e é seguido em loja, sabe o que está em jogo. Só quem é mulher e treme de medo em uma rua escura, sabe o que está sendo dito. E por aí vai. Para quem está de fora é um exagero completo. 

Essa história da Ana Paula e o tido ~descontrole~ dela, me fez lembrar de uma outra história. Não lembro de ter contado aqui com detalhes, mas meus amigos todos sabem. Em 2008, fui fazer uma prova de concurso no Mato Grosso. Peguei um ônibus em Cuiabá para Tangará da Serra, era de noite. Num dado momento percebo mãos em mim. Tremi muito, mas ponderei "será que ele não está só dormindo e sem querer esbarrou em mim?", porque eu também estava dormindo e acordei ali. Obviamente não dormi mais durante a viagem. Meia hora depois, a mesma coisa. E daí eu empurrei o braço dele bem forte, ainda pensando que talvez ele só estivesse dormindo. Na terceira vez eu tive certeza. Levantei da cadeira, fiz um escândalo. O ônibus estava lotado. Agora vem o quiz, quantas pessoas me ajudaram?

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 Nenhuma. 

Ficaram me olhando em silêncio. Ninguém fez absolutamente nada. Eu, sem saber o que fazer, virei para um outro passageiro e disse "Moço, troca de lugar comigo?", e ele "não quero, tô bem aqui". Insisti. "Pelo amor de deus, troca de lugar comigo". Foi um pedido desesperado. Ele levantou puto e trocamos de lugar.

Como mulher, conheço várias histórias de assédio, de estupro, e é impressionante o quanto as mulheres ficam sozinhas quando levantam a voz. Ninguém apoia. Na verdade é difícil termos sequer a coragem de dizer que sofremos algum tipo de violência. Eu levantei minha voz na terceira tentativa. A mulher fica na história como louca, descontrolada, exagerada. São adjetivos raramente atribuídos ao homem. Cansa o foco ser desviado. Muito se falou no descontrole da Ana Paula "não tinha necessidade, perdeu a razão". Não tinha necessidade eu levantar e fazer um escândalo duas da manhã num ônibus no Mato Grosso, eu deveria ter me levantado calmamente e iniciado um discurso pausado, polido e sem gritos "Senhoras e senhores, esse cidadão que está nessa poltrona me assediou, vocês podem me ajudar?".

Spoiler: ninguém ajudaria, porque sempre há um defeito a ser descoberto na fala de quem se levanta. Talvez diriam "não precisava ter atrapalhado o sono do ônibus inteiro. Tá incomodada? Desce do ônibus". Eu desceria se estivesse num lugar habitado. Não era o caso.

Então, cansa mesmo exigirem calma da Ana Paula. Ela foi de pessoa em pessoa na festa, está incomodada com ele há dias pelas histórias que ele conta das menores de idade, todo mundo diz que ela está exagerando. Cuércio faz gestos obscenos na pista para ela, ninguém dá importância. Sozinha na reclamação, tão típico. Junta tudo, ter que conviver com um assediador e ter que lidar com as pessoas que não enxergam o mesmo. Geralda diz que ele se envolver com menor é problema dele, Cuniel diz que não tem nada demais, Munik fala que não deixa de viver a vida e nem olha pra ele. Só Ana Paula, sozinha, batendo na mesma tecla. Eu critico ela ter usado velho como xingamento, mas o ponto central não é esse, e me parece que há um desvio que corrobora a naturalização do assédio. Errada agora é Ana Paula que xingou de velho e chamou de pedófilo sendo que a lei não abrange casos de consentimento acima dos 15. Cuércio, que se envolve com adolescentes, que já confessou que adora pegar mulher bêbada e que não para de olhar para as mulheres da casa, é um pobre coitado que foi acordado aos gritos.

Outra coisa curiosa na minha história do ônibus é que o cara em questão não disse uma única palavra. Exatamente como Cuércio faz quando é confrontado por Ana Paula. Desde 2008 isso me intriga. Ele não falou nada, só olhava, fingindo não ser com ele. É a reação de quem sabe que nada acontecerá. Quem se queimou no ônibus fui eu, não ele. 

7 comentários :

Mila disse...

É só um programa de TV, as pessoas dizem.
É. Mas é um reflexo da sociedade doente aqui de fora.
Infelizmente não há manipulação da produção ali. Ela é tida como louca porque as pessoas realmente a julgam como louca simplesmente por exigir respeito. Lá dentro e aqui fora.

Mila disse...

É só um programa de TV, as pessoas dizem.
É. Mas é um reflexo da sociedade doente aqui de fora.
Infelizmente não há manipulação da produção ali. Ela é tida como louca porque as pessoas realmente a julgam como louca simplesmente por exigir respeito. Lá dentro e aqui fora.

Susi Schio disse...

Sinto pelo ocorrido no ônibus e te agradeço pelo texto, é exatamente isso.

Gabriela Oliveira disse...

Puta merda, que ódio.

Sabe o que me dá mais raiva? Saber que isso acontece com TODA. MULHER. QUE. EU. CONHEÇO. Se não aconteceu, vai acontecer. E que é sempre essa história aí: silêncio. Ninguém tá vendo, ninguém faz nada.

Sabe que aqui na minha cidade teve um caso assim: uma menina X que eu não conheço postou um depoimento no facebook dizendo que tava no ônibus, de boa, e o cara ao lado dela começa a se masturbar. Ela vê, não sabe o que fazer. O cara continua. Depois de muitos minutos ela toma coragem, levanta num ímpeto, começa o escândalo, pede ajuda. Um total de zero pessoas faz alguma coisa. Vários caras em volta, etc e tal, ninguém levanta a bunda pra ajudar. E aí uma outra mulher começou a xingar o cara, que simplesmente levantou e desceu no ponto dele. Momentos.

Corta para os comentários. O que tinha mano dizendo?

Que era mentira. Que DUVIDADA que num ônibus "cheio de homem", como ela tinha dito, nenhum faria algo pra ajudar. Tá entendendo o nível da coisa?
Homem defendendo homem que não conhece, porque DUVIDA que um homem não faria algo. São os mesmos que não fazem nada.

Olha, nem sei. Sinto muito pelo que você passou mas sigamos juntas. Tem que fazer escândalo mesmo. Porque se gritando eles não fazem nada, imagina se ficar quieta? Capaz de tirarem foto pra postar no face.

Julia disse...

Gabriela, eles sempre duvidam. É impressionante. Se acham os heróis ainda por cima.

anacamina disse...

Eu estava conversando sobre isso com o meu namorado ontem, como a certeza da impunidade é forte e como as mulheres não são criadas para levantar e falar.
E quando o fazem é desse jeito que são tratadas. :/

Que bom que você falou, sinto muito que ninguém tenha te ajudado.

Blog Declara disse...

Patrícia, eu te amo desde o começo do seu blog(, porra). Venho sempre de tempos em tempos e leio absolutamente todos os posts que não estavam aqui da última vez que acessei o te amo, porra. E acho que só comentei umas 2 vezes, sou daquelas leitoras silenciosas, quietinha no meu canto torcendo pra Forrest Gump e outros se foderem e você se dar bem, porque cê merece. Pronto, essa foi a parte de quem sempre tá por aqui, mas nunca fala nada e queria te mandar um abraço pelas vezes que você me fez rir e pelas vezes em que me entendeu muitão sem a gente nunca ter conversado.

Pois bem. Sobre esse post. Eu também já fui a doida. A exagerada. A paranóica. Isso porque eu nunca, nunca mesmo saio do meu tom de voz normal, então já sei que passei por isso muito menos vezes do que passam outras mulheres nas mesmas situações em que eu acabei sendo ouvida. Então, nem vejo BBB, mas votei muito pra Ana Paula ficar, por cada uma das vezes em que eu estava certa, estava com medo, estava incomodada, estava assustada e saí de paranóica. Foi uma vitória da internet mesmo! E também queria dizer que, embora não seja lá um conforto grande, eu teria te defendido no ônibus, como já defendi mulheres em situações parecidas. Eu tenho medo por mim, tenho medo por elas (nós), mas defendo porque, juntas, somos mais fortes.

Que cada vez mais vençam as Ana Paulas, as Patrícias e as Claras também.

(queria ser sua amiga, beijos de luz)