quarta-feira, fevereiro 24, 2016

candie e os machistas

Eu comecei a ter a noção de ir na raiz do problema no filme Django Livre, do Tarantino. Claro que tudo já estava encaminhado dentro de mim antes do filme, que é recente, mas foi só nele que eu entendi. No filme, o Leonardo di Caprio faz um escravocrata, Calvin Candie, dono de toda uma região, que promove lutas entre escravos que só terminam quando um morre. Nem preciso falar mais para dar a noção de que é uma figura abjeta. Um dos escravos de Candie, Stephen, interpretado por Samuel L. Jackson, é uma espécie de governante da casa, já é um senhor, de modo que viu Candie nascer, foi escravizado por seus pais etc. Stephen funciona ali como um defensor de todo aquele sistema, ele realmente ama Candie, o tem como um filho. E aí temos o impensável. O escravo que ama o senhor de escravos. É curioso como o Stephen desperta mais ódio do que a própria figura que o escraviza.  Saí do filme com muitos questionamentos, mas o principal é a forma como nós odiamos mais os oprimidos que não enxergam a opressão do que os próprios opressores. Fugimos sempre da raiz do problema. É essa a mudança que o filme me trouxe. Eu não poderia nunca odiar mais o Stephen se eu tenho diante de mim um Candie.

Então, durante a semana, fomos bombardeados com inúmeros textos atacando a Fernanda Torres. É basicamente o que ela faz no primeiro texto, ataca feministas. Apenas observo. Assim como Fernanda, também um dia eu já disse muita merda, já acreditei em coisas absurdas pois fui condicionada a acreditar. O meu olhar hoje para uma mulher que fecha os olhos para a causa feminista é de uma profunda paciência. Eu espero o tempo que for, e estou disposta a falar e escutar caso a pessoa queira ter uma outra interpretação. Estou aqui, pode me chamar.

Aí vai o segundo texto da Fernanda. Não posso falar por todas, mas eu aceito super feliz as suas desculpas. 

4 comentários :

Não sou blasê disse...

Meu entendimento não veio de Django, mas é totalmente isso aí.
Achei as desculpas dignas e fiquei super feliz também. Afinal, muitas vezes já repeti absurdos e ainda tenho em mim muita coisa a ser investigada. Daí pensei: se eu não tivesse tido um olhar e empatia e paciência de outras mulheres, eu jamais poderia ter atravessado certas escrotices em mim mesma.
Pq não é só na porrada que se aprende: a paciência e a empatia também tem um corte bem afiado e profundo nas nossas obtusidades.

leoaugusto disse...

"E aí temos o impensável. O escravo que ama o senhor de escravos"
Impensável? Pelo visto voce nunca leu Hegel né?

P.S.: Gosto do teu blog, foi a unica herança boa da minha ex-mulher ( hj ela nao te le +, eu continuo....)

Luciana Matos disse...

Acredito que o baque maior foi pela própria figura da Fernanda Torres: culta, interessante, livre e... Machista? Antifeminista? Como Assim?
Apesar de achar lamentável que uma artista que possui sua representatividade não tenha aderido à nossa causa, ainda sou da opinião de que a liberdade de pensamento deve ser respeitada.
Não sou boba de achar que, de uma hora pra outra, só por causa do bombardeio de opiniões contrarias ela pensa diferente. Acredito que a reflexão existiu, mas há nuances de sua primeira fala que me parecem arraigadas demais pra ser apagadas por um mea culpa.
Apesar de defensora da luta do feminismo, acredito que devemos respeitar pontos de vista diversos.
Os defensores do cabelo crespo natural atacaram a ditadura do alisamento, mas nos açoitam agora com a ditadura do black power.

Julia disse...

Não tenho paciência pra mulher machista, muito menos anti-feminista.

Vou ficar devendo essa.