domingo, dezembro 13, 2015

carta à menina que fugiu

Tenho pensado em voltar a escrever. Não aqui. A escrever os livros mesmo. Tinha 5 romances inciados aos 16 anos. Parei de escrever com afinco poucos anos depois, lá pelos 20 talvez. Volta e meia tinha um estalo e ia nos arquivos escrever, mas nada muito sério. Então, de 2 anos pra cá, venho pensando seriamente, amadurecendo a ideia das ficções. Hoje, em um dos estalos, fui ler um aquivo dos 16 anos. Eu tenho uma relação forte com as consequências dos erros. Obviamente, aprendi a me perdoar, mas não deixo de pensar na cadeia de desenvolvimento desses erros.

Hoje descobri um erro que não cometi.

Na infância, pensei em fugir de casa centenas de vezes. Sempre por causa do meu pai. O que me prendia dentro de casa era a minha mãe. Saber que a vida podia ser um inferno, mas pelo menos eu tinha a minha mãe.

Então tem esse dia específico. Exausta daquela vida, preparo a minha mochila para fugir de casa. E fico sentada na cama em frente à televisão desligada. Sozinha em casa. Parada, as lágrimas escorrendo em silêncio, pensando. Imóvel. Acho que por tanto tempo que dá o horário da chegada da minha mãe e eu corro pra esconder a mochila pronta. Desesperada por ver meus planos darem errado. Certeza, se eu tivesse mais meia hora, teria fugido.

Como teria sido a minha vida?

Hoje lendo o arquivo tem uma parte que fala sobre os erros que mudam uma vida. A cadeia das consequências. Era uma carta da menina que tinha fugido. Não sei explicar direito, talvez fique confuso. Mas era a menina que fugiu escrevendo para menina que ficou, que por mais difícil que tenha sido aquele lar, não valeu a pena fugir. Não tenho como postar essa carta aqui pela quantidade de assuntos íntimos envolvidos. Mais uma vez, sem saber explicar como, a menina que fugiu acerta a profissão futura da menina que ficou. Fala várias coisas. Fiquei de boca aberta lendo. Nem lembrava dessa carta. Terminei de ler e vim aqui escrever.

Que catarse.

Queria dizer à menina que fugiu, que apesar de hoje sermos completamente diferentes, em um ponto da vida fomos iguais. E embora a cadeia das consequências mude quem somos, ninguém pode dizer que sou melhor do que você. Queria te abraçar, porque a sua sombra sempre esteve comigo, me guiando, quem sabe, como alguém que já tinha vivido tudo antes. Aprendi a me perdoar e acho que você também aprendeu.

Um beijo,
Patricia (a menina que ficou).

14 comentários :

Gabi disse...

Que forte! Não te conheço, mas adoro tudo que leio aqui. E espero que todos os "sentimentos bons" que sinto quando leio suas palavras, de alguma forma, cheguem até a menina que ficou, e também à menina que fugiu. E que vocês duas, um dia, fiquem em paz.

Felipe Fagundes disse...

Nossa, apenas imagino como deve ter sido a experiência. Morro de rir com os seus textos cômicos, mas esses mais intimistas são ainda mais incríveis! E total apoio você escrevendo ficção, eu compraria praticamente sem nem pensar duas vezes.

Mariana disse...

Eu já devorei seu blog inteiro e te leio tranquilamente há uns 3 anos. Eu fico boba como cabe tanta coisa em você: tanta amargura e mágoa que você faz questão de guardar, tanta história de vida, tanto amor e tanta poesia. Não sei se você lê os comentários com carinho ou achando a gente um bando de pau no cu, mas pode ter certeza que pelo menos euzinha adoro todas as coisas que vc escreve e adoraria ler o seu livro. =)

Unknown disse...

Gosto de VC sem te conhecer, gosto da lucidez, do posicionamento, das inquietações do passado. E este olhar para trás e enxergar a menina de ontem e agradecer é um exercício terapêutico. VC foi quem ela quis ser. É lindo isso. Escreve muito, vou sempre te acompanhar. Mas, um pedido, não larga o blog.

Lila disse...

Que texto poético! cada vez que entro em seu blog, eu te encontro mais amadurecida, mais condescendente consigo mesma. Até parece que está fazendo análise... Muito contente com seus progressos pessoais.

andresa disse...

Patricia, eu só queria dizer que eu adoro seus textos, acho vc incrível, e torço para vc ter muita paz e amor :)
Um beijo com carinho

Wesley Lacerda disse...

Que texto lindo, Patricia. Amei. De verdade.
Venho passando por isso há alguns anos.
2015 tem sido um ótimo ano: fiz tratamento psicológico, comecei a vender brigadeiro (sei que muitos não consideram isso um "trabalho", mas pra quem era o SUPER PROBLEMÁTICO DA FAMÍLIA, nunca tinha trabalhado e mal tinha força pra sair de casa... sim, é um TRABALHO. É o MEU trabalho), voltei a meditar, fazer coisas que gosto, respirar ar puro...
2015 foi muito foda, mas tenho certeza que 2016 será muito melhor.
Vivo algo muito parecido com o que você viveu: Tenho uma mãe que AMO, mas tenho um pai que não acredita em meus sonhos e que já disse que estou "morto" pra ele.
Ele é um bom pai, devo admitir. Me aturou por muito tempo. Me deu lar e comida.
Costumo dizer que AMO meu pai, mas não consigo gostar do jeito dele.
Ele bebia (e até hoje às vezes bebe) muito. Lembro de ficar na janela, rezando e pedindo a Deus e a Nossa Senhora pra não deixar ele chegar bêbado em casa. Não adiantava, ele sempre chegava "tonto” e brigava com minha mãe.
Era uma energia muito ruim.
Mas nem gosto de falar muito sobre isso, porque ele sempre foi um "bom" pai. Sempre foi divertido, engraçado... sempre "me aturou".
Mas aí eu penso: por que ele me "atura"? Bem, sempre pensei o seguinte: ele é vendedor e vive viajando por todo país. Minhas irmãs estão todas casadas. Eu sou a "sobra". Se saio de casa, minha mãe fica SOZINHA. SOZINHA. E quem vai ter que abandonar o serviço e arrumar um aqui na cidade? Ele, claro.
Sou uma pessoa de personalidade, sou forte... Mas, ao mesmo tempo, me sinto fraco e medroso.
Eu já deveria ter saído daqui, Patricia. Há anos.
Vivo em um lugar que não gosto e que não tenho privacidade.
Meu sonho é sumir daqui, mas ainda não tenho estrutura. Isso é muito triste.
Nunca saí do estado de Minas Gerais. Ele bem tentou me levar pra uma de suas viagens, mas nunca tive coragem de abandonar minha mãe.
Teve uma vez que mandei um desabafo pra você. Você foi atenciosa e me respondeu. Foi lindo. Isso me encorajou muito, tanto que comecei a fazer terapia.
Fiz a lista que você me aconselhou a fazer. Em 2016 quero estudar muito, quero pegar firme e dedicar meu tempo a coisas BOAS.
Tenho vontade de fazer jornalismo e LETRAS.
Beijos, Paty. Continue escrevendo. Sou seu fã e gosto muito de você. De verdade. <3

Mariana Rodrigues disse...

Fico feliz por sentir vc melhor a cada postagem.
Te leio há tempos e pelo que consigo ver pelo blog, acho que vc esta na sua melhor fase.
Espero que sua vida só melhore... e que vc tenha orgulho da menina que ficou, pq vc deve ter.
Forte abraço.

Mariana Rodrigues disse...

Fico feliz por sentir vc melhor a cada postagem.
Te leio há tempos e pelo que consigo ver pelo blog, acho que vc esta na sua melhor fase.
Espero que sua vida só melhore... e que vc tenha orgulho da menina que ficou, pq vc deve ter.
Forte abraço.

Rachel Earl disse...

Wesley Lacerda, brigadeiro é um dos doces mais gostosos da vida. Proporciona um alívio e prazer semelhante ao de um oral bem feito, uma boa massagem nas costas ou o carinho de nossos bichinhos de estimação, então vendê-los é trabalho sim. Do original ao gourmet, continue com esses pequenos milagres em forma de doce e boa sorte. (e nunca esqueça de fazer os de pistache, pra mim são os melhores)

Marcita disse...

Que coisa linda...

Marcita disse...

Que coisa linda...

Camilla disse...

Puta que pariu vc é foda

Camilla disse...

Puta que pariu vc é foda