domingo, setembro 06, 2015

I am Cait



Estou vendo I am Cait - passa no E!, mas dá pra baixar também - e tenho refletido bastante, claro que está atrelado a um processo de reflexão longo feito nos últimos anos. Sigo aprendendo a cada dia. A causa trans, especificamente, me ajudou a calar mais a boca diante de questões que não são minhas. Eu não tenho propriedade para dar pitaco na causa trans ou na causa negra, por exemplo, minha parte é escutar e dar apoio. Meu papel é aprender. Muito se fala no papel do homem na causa feminista e eu acho que é esse também: calar a boca e escutar.

Acompanhar o seriado sobre a vida da Caitlyn Jenner tem sido interessantíssimo em diversos aspectos. A relação dela com a família, com os amigos homens heteros, a relação com as filhas, sempre mais abertas ao diálogo do que os homens, é impressionante. E um dado momento a irmã fala sobre Caitlyn ter dito sobre a transexualidade 30 anos atrás, "achei que era uma fase, ela nunca mais mencionou". Porque fica para o grande público, a grande massa de julgadores, que um dia ela acordou e falou "taí, quero ser uma mulher". Um julgamento que reduz o ser humano e suas reflexões internas. O processo de transição, o processo de reconhecimento dessa transição é longo, muitas vezes a pessoa passa por períodos enormes de depressão até entender o que está acontecendo. Muito se fala do privilégio da Caitlyn ter dinheiro e suporte familiar, mas pode ter sido justamente a fama o principal empecilho na aceitação da transexualidade. O peso que se tem ao ser atleta, campeã olímpica recordista e tudo mais. A posição da mãe, apesar de cristã, é aberta para a possibilidade de compreensão. Não é uma aceitação direta, mas uma abertura para. A mãe diz "é difícil assimilar, mas irei assimilar", mais tarde diz "eu preciso aprender mais". E aí a gente tem uma questão crucial: o reconhecimento das próprias limitações. Olha como é difícil lidar com o mundo, mas me dá um tempinho aqui pra ler, me informar, que daqui a pouco eu estou pronta. É o primeiro passo. E o que vemos, na maioria dos casos, é uma total aversão ao desconhecido. Aversão que produz preconceito e consequentemente ódio. 

É engraçado também acompanhar o início de uma mudança política. Caitlyn sempre foi republicana, conservadora. Uma das amigas fala sobre um grupo que luta por ajudas do governo e Cait diz "ah, mas não se pode dar tudo de mão beijada porque aí a pessoa não corre atrás". Daí Cait vai na reunião desse grupo e se depara com as histórias das pessoas "fui expulsa de casa", "era a melhor aluna do colégio e sequer tive chances de ir pra uma faculdade", "não conseguia emprego, para não passar fome me prostituí" etc. A cara de choque dela. A realidade completamente diferente. Pá na cara. Uma mudança total de perspectiva. No final do dia Cait tá chamando a assessora, aos prantos, e dizendo "nós vamos pagar a faculdade dela". É uma cena emocionante, mas também hilária.

Curto também as participações das ativistas no programa.  Uma delas, a Kate Bornstein, falou sobre a questão do aliado. Um pensamento que é bem parecido com o meu:

"Tenho problemas com a palavra 'aliado'. Muitas pessoas pensam que, por nos aceitarem, são nossas aliadas, mas não são. São apenas receptivas. Ser aliado significa... você me pergunta do que eu preciso, eu respondo, e você me diz o quê ou o quanto pode fazer para me ajudar. Se eu disser que preciso de ajuda para atravessar aquela multidão, que me vê como aberração, preciso que você seja meu guarda-costas. Isso significa ser um aliado. E pergunte. Não presuma que sabe. Não presuma que o nosso maior problema seja banheiros de uso livre. Não é. E para algumas pessoas este é o maior problema. Pergunte. É o primeiro passo para ser um bom aliado". 


Vale a pena acompanhar o seriado.

8 comentários :

anacamina disse...

Fiquei interessada, vou assistir! :)
Sempre tentei aceitar, respeitar, entender o máximo possível das realidades diferentes da minha. Acho que esse é o caminho para um mundo menos preconceituoso.

Anônimo disse...

Queria muito q vc voltasse a escrever sobre o seu dia a dia... eu gosto de ler suas histórias, ler sobre sua vida e tal. Por favor, faça um resumo sobre como vc está se sentido, como as coisas estão indo...
Beijos e adoro você!

Lucas Vianna disse...

Patrícia, por favor, continue sempre escrevendo. Suas postagens me fazem um bem tão grande. Me ajudam a refletir, a me emocionar.
Abç

Fran Carneiro disse...

Espero assistir em breve, fiquei interessada. Especialmente porque, por mais que a gente aceite, ainda é difícil tornar fácil de lidar, eu acho. Eu entendo, mas quero entender MAIS, quero ouvir MAIS, quero conhecer MAIS. Sabe? Desde que conheci o feminismo e todas as causas que ele abrange fico pensando nisso: quero mergulhar nisso e quero estar aberta ao outro o máximo que conseguir.

Anônimo disse...

Aí Patricia, sempre dando excelentes dicas! Vou assistir tbm e quanta saudade eu tava dos seus posta, continue sempre, grande abraço e um beijo!

Ju disse...

Eu comecei a assistir mas passa super tarde... você tá baixando onde?

Julia disse...

Baixei 3 episódios por torrent no pirate bay por indicação sua.
Gostei e aprendi várias coisas. Obrigada pela dica.

Anônimo disse...

Texto muito bom. É exatamente esse o ponto: o conhecimento ou a busca pelo o mesmo com certeza é a melhor ferramenta para combater a ignorância.