domingo, julho 19, 2015

sobre eva, nina simone e minha mãe

Semana retrasada assisti o documentário sobre a Nina Simone no Netflix. É realmente uma pancada, mas isso aí todo mundo já falou - e super bem - nas redes sociais. Não é novidade. Pensei durante todos esses dias na forma como julgamos as outras pessoas tendo em vista o nosso modelo de reação. Eu não aceito que homem algum me bata. Então, sempre me custou entender mulheres que aturam esse tipo de tratamento, principalmente aquelas independentes financeiramente dos seus maridos, embora haja a dependência emocional. Minha mãe ficou casada dez anos com um agressor. Sempre tive dificuldade de entender como. Por quê? Por que não se separou antes? Como continuar apaixonada por um merda e se sujeitar a isso? Algumas pessoas estão tão inseridas em uma cultura que as rebaixa que é difícil para elas perceber. Em Django livre, filme do Tarantino sobre a escravidão, um dos personagens é um negro escravizado que defende os brancos e com essa defesa ele ganha "regalias" do seu opressor. No lançamento do filme foi a maior polêmica, pois a nossa ideia do negro vítima da escravidão é a de resistência e não de complacência. Lembro de uma matéria sobre um historiador negro que pesquisou seus antepassados esperando conhecer uma história de luta e bravura, descobriu que o tataravô era o capataz da fazenda, caçava negros fugidos e os trazia de volta ao inferno. Tanto o personagem da ficção, como o da vida real, foram vítimas de um sistema, aprenderam a jogar para poder sobreviver. Minha mãe, Nina Simone e tantas outras mulheres, não sofreram a violência com resignação por falta de coragem. Talvez, para elas, era a parte que cabia. É a conta menor que tiraste em vida. Tenho um conhecido que é gay assumido, mas detesta beijo gay em público, acha um desrespeito com os outros. Uma vez pensando, ponderei o fator idade, ele tem uns 50 anos, é de outra geração. Sendo ou não a idade, a raiz está no não reconhecimento da igualdade. Eu, gay, não sou igual a eles, heteros, não tenho os mesmos direitos, sou de uma classe inferior. É um sistema estrutural que te faz pensar assim. Faz ter ódio de si mesmo. Outro dia no grupo show de horrores no whatsapp, a gata perguntou se alguém conhecia uma diarista que passasse roupas, emendou dizendo "não aguento mais passar as roupas do meu marido". Ela trabalha, ele também. Nunca imaginaria um homem fazendo a mesma pergunta. Por que ela, mulher, acredita ter essa função? Veja bem. Se há uma troca, sem problemas. Eu passo suas roupas e você faz a comida, mas a gente sabe que essa não é a realidade. Meu ponto é. A gata tem 30 anos em 2015. Olha o sistema opressor que a faz achar natural passar as roupas e "cuidar" do marido. Enxergar é difícil e meu papel aqui não é julgar mulher nenhuma, é reconhecer que, tal como o capataz negro, elas também são vítimas. E não é por vontade ou por apatia. Mexer com a estrutura é algo revolucionário, pois estamos lidando com a mudança de crenças coletivas. Conheço Maria que namora João, que ficou com Bia, melhor amiga de Maria, bêbada. Maria rompeu com a amiga e permaneceu namorando João por entender que Bia buscou, Bia provocou, Bia bebeu porque quis, Bia pediu. Maria, veja só você, é feminista. Não vejo como contradição. Vejo com uma tristeza enorme, e mais uma vez, não faço julgamentos a ela. Entender os dez anos de casamento da minha mãe com o meu pai agressor, entender as agressões e os estupros sofridos pela Nina, entender amigas namorando babacas, tudo isso me foi, até um tempo atrás, extremamente difícil. Eu não percebia que meu dedo em riste - como você pode aturar isso - era também uma forma de agressão. Pela falta de compreensão do quanto uma estrutura é capaz de se perpetuar no mundo e no imaginário das pessoas. E se reconheço essa estrutura e luto contra suas correntes, não é todo mundo que iniciou o processo de libertação. Posso nunca ter aceitado apanhar de homem, mas um dia acreditei na falácia "mulheres não são confiáveis" e me orgulhava de ter a maioria de amigos do sexo masculino. Acreditei numa história contada desde antes da ideia de Adão e Eva surgir, ideia aliás que nem é exclusiva do velho testamento. A concepção de Adão e Eva, tendo a mulher como a responsável pela queda da humanidade, está presente em várias lendas da antiguidade. A quem interessou, ao longo dos anos, contar essa história? A mim, mulher, é que não foi. Meu objetivo hoje é de uma maior compreensão diante daquelas pessoas presas em correntes, não posso quebrar a corrente por elas, é um caminho longo e individual. Minha parte é estar aqui para esperar e dar apoio nesse processo.

21 comentários :

Marcus Gomes disse...

Seu blog, sempre muito bom.

Penny Lane disse...

Patrícia,talvez a nossa quarta geração as mulheres ja tenham aberto seus olhos.a nossa ainda acha normal estas agressões.não conseguem enxergar de maneira nenhuma o machismo.minha mãe é machista.me ensinou a fazer as coisas dentro de casa com a desculpa de " pra mais tarde seu marido não dizer que não te ensinei".sabe.meu irmão brincava e eu tinha que parar pra lavar louça.o pior é que ela não admite ate hje que é machista.o nos podemos fazer é ensinar as nossas crianças ( tanto menina quanto menino) que os direitos são iguais para os dois.
Ja a nossa geração ja desacreditei...

Rosana Tibúrcio disse...

Patricia, quero que você ame Minas (tá quase...rs), seja minha amiga e venha na minha casa. Cara, que post é esse??? Melhor post da vida.
TODOS PRECISAM LER ESSE POST!!!

neutron disse...

Te leio há anos e nunca comentei. Hoje comento pra concordar do início ao fim. Obrigado pela lucidez, e por expressão tão bem algo em que precisamos pensar. Um beijo, moça.

Allan Penteado disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Allan Penteado disse...

Também me questiono sobre tudo isso, e vejo que há um sistema que rege as coisa e nós estamos tão inseridos nele que enxergamos como um padrão. Uma normalidade.

Não sei se sempre existiram pessoas que o questionassem, ou isso tem aumentado no século em que vivemos - mas tenho a impressão de que mesmo que demore as pessoas estão tomando mais consciência.

Adorei o texto.

Ana Luísa disse...

Que texto incrível, Patrícia. Eu também, por muito tempo, fui do time que põe o dedinho em riste para julgar esse tipo de atitude, mas fui aprendendo que não é bem assim, realmente. O sistema domina a cabeça das pessoas - e com certeza domina a minha em diversos aspectos que eu ainda nem percebi.
Beijos!

Vanessa disse...

Esse texto é tão bom que vou sair postando por ai.

Eu me identifiquei muito com várias coisas que você escreveu. Sobre julgar outras mulheres, sobre não entender como algumas aceitam a violência.
Ainda me revolto com minhas amigas e seus namorados babacas (Tenha uma que aceita cada coisa que me dá úlcera, mas não adianta dá conselho, é apoiar na hora que ela tá na merda).

O feminismo tem muito que fazer ainda, mas acho que estamos no caminho certo, vejo muitas mulheres abrindo os olhos.

Não sou blasê disse...

Post cheio de lucidez.
Quanto demorar o aprendizado, né? Quanto tempo a gente demora pra ver que a liberdade pode ser bem mais sutil do que a gente imaginava. Também já acreditei que era "melhor" ter mais amigos homens do que mulheres. Ainda bem que pude rever isso. Hoje reconheço a igualdade não como um planificação ou eliminação das diferenças, mas sim como aceitação e criar, em mim, meios de "negociar" com tais diferenças.

Bem legal seu texto. Dá pra ver que você passou por grandes transformações, desde o primeiro post até esse. Que você continue assim, se libertando mais e mais. E bonito de ver.

Anônimo disse...

Patrícia,
Obrigado por esse texto.
Sou gay e estou saindo de um relacionamento abusivo de 4 anos. Finalmente consegui me desvencilhar e pôr um fim nisso tudo. A questão é que quem terminou inicialmente foi ele, quem me agredia era ele. E mesmo assim me sinto a pior pessoa do mundo. Ele diz que vai mudar, que é a primeira vez que pede uma chance e eu quase acredito nisso e penso em voltar.

Seu post me fez um bem enorme. Obrigado.

(Acompanho seu blog há anos. Parabens)

bruh* disse...

Patrícia, eu te acompanho há um tempo já, e nunca tinha comentado até hoje. Obrigada por esse ponto de vista que me fez pensar em tantas coisas. Sinceramente, obrigada.

Anônimo disse...

Acompanho o seu blog desde os tempos de Jiboia City. Parabens pelo texto. Ainda estou na fase de aprender a parar de julgar as pessoas.

Carlinha Salgueiro disse...

É um exercício diário e também sigo tentando. Obrigada pelo texto!
Te adoro, Patricia!

Fernanda disse...

<3

Sarah Casasanta disse...

Muito bom! Meus parabéns!

Bella disse...

Patrícia que texto incrível! Consegui me libertar de um casamento abusivo, mas demorei cinco anos para voltar a enxergar a luz. De fato, é um processo longo e individual, mas é importantíssimo saber que tem-se apoio nesse processo. Beijo! Procê e pra sua mãe também! :-)

Livia disse...

Patricia, esse texto é maravilhoso <3

Anônimo disse...

Muito bom, o post. Leio o blog já faz muito tempo, mas não lembro se já cheguei a comentar, acho que não. Em várias situações, eu já apontei o dedo, já ri, já julguei, já me permiti estar em situações abusivas e pensei que a culpa era minha. Mas hoje eu me sinto muito mais consciente, e percebo que muitas das pessoas que leio constantemente (e anonimamente) também estão nesse caminho.

Alicinha disse...

Melhor texto ever!

Lila disse...

Patrícia, que texto belíssimo! Nem parece a mesma Patrícia que eu acompanho há anos. Muito feliz com o seu crescimento pessoal.

greice disse...

Muito bom!!
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