domingo, agosto 31, 2014

eu não sei quem é você

Sempre tive uma tendência a perceber os erros dos outros. De uns tempos pra cá percebi o óbvio: eu também erro. Não aprendi ainda como consertar, mas com certeza mudei de postura. Tive uma conversa com a minha mãe em abril bem significativa. É engraçado como eu demoro para processar as coisas. Meu tempo é lentíssimo. Não falo sobre o entendimento das situações, mas sobre o processo de digestão. Tive a conversa em abril, nós estamos em agosto e somente agora consigo falar. Somente agora foi digerido. Fica muito claro para mim. Não sou a filha que ela quis. Dói mais porque ela sempre foi a mãe dos meus sonhos, se eu tivesse escolha, seria ela mil vezes. Mas ela seria um mãe muito mais realizada se fosse mãe da Jô ou até da Rita. Ela é louca para ser avó e eu jamais realizarei seu sonho. Ela sempre quis cumplicidade na relação de mãe e filha e eu nunca consegui dar isso. Foi me cobrar nessa conversa. "Eu não sei quem é você". Acho tudo muito triste. Porque é uma incapacidade minha, nasci com essa peça faltando, na verdade acho que nasci com a peça, mas me foi roubada. O Fernando, fazendo as vezes de Bernardo, conseguiu falar sobre essa incapacidade no Livro do desassossego, lembro de pensar ao ler "taí, descobri porque sou assim". Jô é auxiliar de serviços gerais e tem dois filhos. Rita é uma delusional que engravidou do primeiro quando sentiu a idade pesar. Tenho reservas com as duas. Acaba machucando mais quando penso em uma situação hipotética da minha mãe em um plano superior escolhendo qual filha gostaria de ter. 1) Jô. 2) Rita. 3) Patricia. Tendo essas três opções, a ordem seria essa. A minha arrogância sai humilhada, pois me vejo melhor. Infelizmente ela não me vê assim. E como acredito mais nos valores da minha mãe, acabo baixando a bola, aceito a escolha. Veja bem, não estou falando de amor, não estou aqui levianamente questionando o amor da minha mãe. Jamais. Não é essa a questão. Sei da reciprocidade. A questão é a motivação desse amor. Amo a minha mãe mais por admiração do que por laços sanguíneos ou simplesmente na relação arbitrária de mãe e filha. Amo porque é a melhor mãe. O triste é perceber que o amor de volta é apenas uma questão de criação, é arbitrário. "Eu não sei quem é você". É a minha preservação. Mãe nenhuma merece. Fica tudo em suspenso. Ela quer saber, mas eu não tenho condições de contar quem eu sou de verdade. Isso implicaria abrir uma caixa de pandora. Das coisas capazes de moldar um caráter, de todas as tragédias, isso ninguém sabe. Ela sabe que tem alguma coisa aí, talvez no fundo até desconfie. Ela me conta um história de uma babá que eu tive. Um dia ela chegou no lugar mais cedo do que o habitual e me encontrou toda suja, faminta e com o carrinho virado de costas para a tv e eu tentando ver a tv virando o pescoço. Ela chora até hoje contando essa história. Já escutei mil vezes. "Eu não tinha com quem te deixar pra ir trabalhar, minha filha". Ela desaba contando isso, vai catando os cacos, se arrepende. Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Então, eu não posso, sabe, dar a ela a minha cruz. Ela não teve culpa de nada. Fiquei vendo ela ali sentada, ouvi tudo quieta e fui relembrando mil coisas. Eu não tenho o direito de jogar tudo isso na mesa. Jamais faria isso. E mais uma vez vamos criando essa distância, ela interpreta falta de amor e falta de cumplicidade. Eu não posso sair desse papel do halo de gelo repelindo os outros (Fernando etc). A verdade é que esse papel me cai muito bem. E assim vou seguindo a vida.

18 comentários :

Livia disse...

Patrícia, te admiro muito por ter coragem de falar sobre essas coisas. Você fala que sua mãe não teve culpa, pois bem, você também não teve. É difícil se comparar às outras pessoas, pois cada um sabe onde o calo dói. Talvez sua mãe seja "a melhor mãe", mas eu também acho que você é "a melhor filha". Você é trabalhadora. Você a protege, literal e figurativamente. Você é capaz de enfrentar o mundo por ela. Será que isso tudo pode ser jogado fora somente porque você não terá filhos? Talvez a Jô e a Rita pudessem dar netos a ela, mas talvez não fossem tão leais a ela quanto você é. Só porque você não se enquadra num suposto "molde" conservador, não significa que você não seja uma excelente filha. Seus valores não são inferiores, apenas diferentes. Você teve uma vida completamente diferente da vida dela. Eu pessoalmente acho que ela tem muita sorte de ter uma filha como você.

Gigi Loop disse...

Olá, muita coragem sim. E a coisa mais difícil do mundo olhar e falar sobre mãe com tanta sinceridade. Deu um no na garganta. Bjs

Luisa Maria disse...

A Livia disse tudo e mais um pouco. É isso, vamos parar com essa besteira de culpa. Vc é um ser humano, tem falhas e acertos. Sua mãe tb. E olha, tds os pais e mães tem isso: se o filho não é médico como o pai, se a filha não casou com o cara rico, se o filho foi ser ator em vez de advogado...Frustrações vindas de espectativas criadas a partir das próprias frustrações vividas pela mãe/pai. Pense nisso. Em vez de se martirizar, pare pra pensar nos processos emocionais que sua mãe deve ter passado pra se sentir assim em relação a vc. Olhe para ela. Vc é uma boa filha, uma pessoa boa, como a Livia já colocou. Pq sua mãe tem essa dificuldade em te aceitar? Só pq vc não pariu ngm? Acho que não. Acho que isso pede uma analise mais a fundo, não de vc, mas de sua mãe e do que ela sofreu e em como isso a afetou, no quão profundas são essas marcas etc.
Só pra constar: tb acho sua mãe o máximo. Mas é um ser humano tb, né? Bjs!

Allan Penteado disse...

Olá Patricia. Vivo um dilema parecido, sou o filho que toda mãe gostaria de ter, mas não a minha a mãe. Ela projeta expectativas sobre meu futuro e acha que só serei feliz se eu realizar os sonhos que ela tem pra mim. (como casar logo, dar uma festa de casamento, ter um filho e uma casa). Já parei pra explicar duzentos trilhões de vezes que cada um é cada um, ou que cada qual tem suas metas e objetivos, além de existirem milhões de formas de sermos felizes. Ela não me entende, quer coisas pra mim que nem eu mesmo sei se quero, não entende meu tempo, me dá um certo apoio físico mas sempre fala do que acha ideal para mim em aspectos morais - ou para qualquer outra pessoa - dilema difícil esse. Caso eu tenha filhos, não quero envolve-los em minhas expectativas, não dessa forma, quero entender o que eles querem e deixá-los serem felizes. Será que é tão difícil???

Guilherme disse...

Expectativas daqueles que amamos sempre tem essa capacidade de ecoar na nossa cabeça e gerar frustração quando não conseguimos atendê-las.

E dizer "desculpe, mas isso não vai acontecer" é difícil, porque parece que estamos desapontando aqueles que mais nos amam.

Já pedi desculpas por não atender as expectativas que me foram impostas mais de uma vez, e por mais que a resposta seja a mesma: "não espero nada", sabemos que isso não é verdade.

E eu sigo, fazendo o meu melhor, e tentando atender as minhas expectativas sobre mim mesmo, mas sabendo que dificilmente vou conseguir atender as expectativas alheias.

Mas, é a vida.

Vivi disse...

Se tem uma coisa que eu sei construir é muro; ponte eu nunca soube.

Sou filha única. Meu pai é falecido, mas nem ele, nem a família nunca ligaram pra mim; não tive contato com a família dele, não conheço meus primos.

Sou distante da minha mãe pelo fato dela ser possessiva e querer decidir tudo pra mim. Ano que vem faço 30 anos e se eu amolecer ela escolhe minhas roupas, meus sapatos, etc.

Ela é uma boa mãe e se tivesse o meu sangue quente, me diria muitas e boas, mas ela não diz; ela é resignada. Mas me sufoca.

Sobre outros aspectos nem vale a pena comentar. Infelizmente todo mundo tem sua cruz pra carregar.

Anônimo disse...

Chorei lendo seu post...

Camila/RS disse...

Patrícia,
Cada post teu me assusta, pq parece que sou eu escrevendo. Ao menos alguém me entende. Isso já é um "alívio".
Te amo.
Bjos

alissi disse...

Querida, pode ser que ela não te conheça pq talvez voce também não. Abrir a caixa de pandora é difícil, mas necessário. É pra isso que estamos aqui. E, depois, você vai ver que também é libertador.
Desculpe-me pelo julgamento, mas também me enxerguei nas suas palavras.
Um beijo

Van disse...

Patricia, leio o seu blog ha algum tempo. Sei, por alto, sobre problemas que você passou, que sua mãe, ou seja, vocês não tiveram uma vida fácil. Isso cria certos muros envolta da pessoa. É até natural. Talvez, você devesse se abrir um pouco mais, não tudo, mas algo que ajude a sua mãe te entender melhor. Sei que é mais fácil falar do que fazer, mas devia tentar.

Sobre expectativas, uma amiga minha psicologa que trabalha com crianças diz: Todos os pais tem dois filhos em um. O primeiro é o imaginado, aquele que ainda tá na barriga ou quando ainda é criança. E existe o real.
Muitos pais não estão preparados para lidar com o filho real.

Só um exemplo. Eu tenho uma amiga MUITO inteligente, estudiosa. Aquele tipo de pessoa que sempre foi a melhor aluna, que sempre foi o primeiro lugar. A mãe dela se orgulha? Não. Queria que a filha fosse Miss (serio), que fosse Rainha das Rainhas, que procurasse um cara rico (em vez do namorado militar que ela tem hoje). Elas tem um relação péssima, tudo porque a mãe não aceito o jeito ~nerd ~ da filha.

Muitas coisas você não poder´dá pra sua mãe, tipo o neto. mas ela poderia te enxergar melhor se vc tentasse se abrir.

Isabela Silvino disse...

Talvez o dia em que vc se abrir e contar a ela tudo o que se passou, as coisas parecerão mais fáceis do que agora. Foi como a Livia disse ali, vc era uma criança. A culpa não foi sua e nem da sua mãe. Vamos colocar a culpa em quem teve culpa de verdade. Vcs precisam tirar esse fardo das costas de vcs. Não, não é fácil. Mas é preciso colocar as coisas nos seus devidos lugares. Quando vc quebrar esse muro de falar sobre vc pras pessoas que te amam acima de qualquer coisa, como a sua mãe, tudo vai melhorar. E sei que pode parecer uma coisa impossível e vc quer poupá-la das coisas. Mas vc precisa contar a sua história, explicar o pq das coisas. Acho que pra ela vai ser bom saber quem é a filha dela. O pq a filha dela escolhe o caminho B ao caminho A. A gente muitas vezes se sente incompreendido por nossos pais, mas não falamos aquilo. E fica aquele vão no ambiente. Foi o que eu fiz com o meu pai. Ficou esse vão durante anos, até o dia em que o universo me obrigou a falar o que me incomodava e pq eu me afastei dele. E tudo melhorou. Ficou menos pesado. Pensa nisso. :) Beijos!

Arthur. disse...

Eu entendo que tu não se abrir pra não machuca-la é uma prova de amor da tua parte.
Mas, pra ela, tu se deixar conhecer e permitir que ela ajude nas tuas dificuldades e fardos é uma prova de amor ainda maior. E ela sente falta disso.

Boa sorte, sou leitor há muitos anos e desejo sempre o melhor pra ti.

Anônimo disse...

Me vi nesse post... já chorei tantas vezes, sozinha no meu quarto. Gritava no travesseiro, pra extravasar a minha dor, nunca quis parecer fraca e patética, ou mesmo bancar a vítima pra ninguém.

Anônimo disse...

Olha quem diz que "é melhor se abrir e contar tudo, vai ser melhor e tal" não faz ideia do peso... Uma vez eu tentei contar pra minha mãe, contei a parte leve da história, e o olhar de horror e importência dela me marcou pra sempre. Esse é um demônio pra eu carregar sozinha, cada dia aumentando o muro. Se eu to bem assim? Não. Mas se aguentar isso sozinha significa que minha mãe não vai ter que aguentar, então vai ser assim.

Jou disse...

Nossa, minha história se parece muito com a da comentadora Vivi. Igual, aliás. E com relação ao comentário do Anônimo logo acima, sim, abrir a tal caixa de pandora não é fácil e as pessoas que falam para fazermos isso de forma a parecer tão simples, não sabem o que estão falando. Concordei com ele.

Anônimo disse...

Minha historia super parecida c a da Vivi, exceto q meu pai eh vivo. Minha mae eh possessiva nivel - eu sai do brasil. Juro. Nao dava pra viver na mesma cidade q ela. Precisei fugir. Raramente volto ao rio de janeiro prq nao quero ngm me sufocando. Faco de tudo, invento mil desculpas pra nao ve-la, prq aturar pelo skype ja eh complicado. Fala na minha cara q sente saudade de brigar comigo. DEUS-ME-LIVRE.
Meu pai me ama tanto q veio me visitar dias antes do meu parto, ficou aqui 4 dias e se mandou pra disney por mais umas 2 semanas pra que minha irma de 7 anos passasse o aniversario dela ao lado de mickey. O CARA NAO FEZ QUESTAO DE FICAR NO MEU PARTO. Oremos.

Anônimo disse...

Ai Patricia, sinto tudo, cada palavra, cada peso, cada cicatriz que a gente não pode dividir porque entendemos a luta delas. Meu pai abandonou eu e minha mãe, eu admiro essa mulher com toda, toda força, a amo por ela ser quem é, não por ser minha minha mãe. Sei que não sou a filha que ela sonhou, nunca lhe darei netos, nunca vou me casar, e jamais vou contar os estragos internos que a vida fez, o porque da minha depressão
Te entendo patricia, e te amo em nossa semelhança

Renatinha... disse...

Chorei. Também filha única, às vezes lá no fundo me vejo culpando minha mãe por medos, neuras que me acompanham desde sempre. Mas não dá... pq ela tbm é a mãe que eu escolheria mil vezes em mil reencarnações. Foi engraçado seu texto pq eu sempre tive certeza de que tinha que ser ela, mas nunca me perguntei se ela me escolheria. E chorei. Tô longe bagarai de casa, fazendo um trabalho de tutoria pra ganhar 765,00 de salário, com meu doutorado debaixo do braço, sem perspectivas... sei lá. Obrigada pelo post. =)