quarta-feira, julho 30, 2014

mimimi da copa

Demorei para postar, pois precisava antes escrever sobre a copa e tudo que ela movimentou em mim.

Gosto de acreditar que na teoria dos universos paralelos, em algum deles, o Brasil conseguiu ganhar em casa. Serei bem sincera. O fator humilhação, para mim, é o de menos. Foi sim a maior humilhação em copas, mas esse não é o meu ponto. O ponto é o fantasma precisando ser exorcizado desde 50. Há gente que não quer outra copa nunca mais no Brasil. Eu quero 100. Até fazer esse fantasma subir e ir embora das nossas vidas. Galvão disse no tetra em 94 que o Brasil estava exorcizando o último fantasma que restava, a cobrança dos pênaltis. Eu discordo. O último fantasma é ganhar em casa. E mais uma vez não conseguimos. Há quem procure culpados, está cheio de textos por aí, não defendo e não condeno nenhum dos nomes citados. Minha única defesa vai pro Barbosa, que merecia esse título mais do que qualquer um de nós. Gosto de pensar que, em outro universo, ele foi feliz conquistando o primeiro campeonato em 50, jamais tendo escutado a palavra Maracanazo e, quiçá, com outro termo inventado El Maracanón donde solamente gana cabrón de Brasil.

As pessoas não fazem ideia, né? Do que era aquele momento para o Brasil. Li resenhas aos montes dizendo como o 7x1 foi pior. E apenas o meu minuto de silêncio para quem, além de desconhecer a história do futebol, desconhece a história do Brasil. A primeira efervescência do orgulho negro está intimamente ligada a dois fatores: o candomblé e o samba. O percurso foi longo até conseguirem o respeito da elite branca, até, por exemplo, Heitor Villa-Lobos chamar o quarteto de ouro - Cartola, Donga, João da Baiana e Pixinguinha - para cantar para outro maestro famoso que agora não sei o nome. Era não só a elite branca olhando para o negro pela primeira vez sem desdém, como também era para o negro uma afirmação da sua importância. O Brasil e principalmente o Rio de Janeiro borbulhavam em 50 numa expectativa de ser a nova França/Paris. A confiança naquele time era absurda. E veio o revés, 2 x 1 Uruguai e o nosso bode expiatório foi o goleiro Barbosa. Uma horrível teoria antiga voltou com toda força, a de que estávamos fadados ao fracasso por causa da miscigenação. Barbosa e Bigode, o responsável pela marcação do Varela, eram negros. De onze pessoas em campo, caiu sobre eles a responsabilidade da vergonha nacional.

Nelson Rodrigues, 8 anos mais tarde, escreveu a crônica "Complexo de vira latas". Foi escrita às vésperas do início da copa na Suécia e falava sobre a falta de motivação das pessoas com frases naipe "Brasil nem se classifica" etc. Era um sentimento de pessimismo em relação à seleção que viria se consagrar campeã pela primeira vez. E o Nelson vai discorrendo sobre como esse é um problema iniciado na derrota de 50. Como as pessoas acreditavam muito naquele título, não poderiam sofrer novamente, então o pessimismo acabava sendo uma válvula de escape. Não passava na cabeça do Nelson que ali ele tinha definido o estereótipo do brasileiro. "Somos uma merda, o estrangeiro é sempre melhor". Esse sentimento sintetizado no tumblr só no brazil. Iguais essas comparações que a gente vê hoje no facebook, Ronaldo Nazario (calado é um poeta - parte II) dizendo que a Alemanha tem 100 Nobel e o Brasil nenhum e essa é a verdadeira goleada. É um acinte, né? Esquece da nossa colonização durante 300 anos. Esquece todos os pormenores. É a mesma coisa se fizermos uma comparação entre ganhadores homens e mulheres ou ganhadores brancos e negros e daí tirarmos equivocadamente que a mulher e o negro são inferiores. Falta olhar para o fundo da nossa história. A maioria das pessoas só olha a nossa superfície. A copa de 50 foi muito pior porque definiu a identidade nacional. O vira lata complexado. Ninguém ergueu a cabeça depois dos 7x1, porque ninguém recuperou o orgulho depois de 50, nem com o título em 58, nem com as outras copas, nem sendo o maior campeão. Veja bem. Ainda estamos no topo e nos comportamos como ralé.

Aqui entra outra reflexão. Quando o futebol sai da elite e passa a ser de massa, ele traz a crítica imbecil da alienação do povo. O futebol passa a ser o principal responsável de todas as nossas mazelas. Chamam o povo de alienado, de massa de manobra. Tudo isso por causa do futebol (e do carnaval também, mas isso é papo pra outro post). Como se o futebol tivesse todo esse imenso poder, como se a alienação não fosse fruto da falta de incentivo ao pensamento plural. E quem trata a população dessa forma não percebe (ou será que percebe?) o quanto esse discurso é preconceituoso. Tachar o povo de ignorante e sem condições de pensar tem outro nome senão o preconceito? Quem desmerece o esporte, lhe tira a visão de cultura. Tira o mérito, não consegue enxergar.

Por isso as coisas para mim são mais amplas. Não me atenho aos vilões ou heróis, a esquemas táticos ou confederações corruptas. Vai me interessar sempre o sentimento, a marcação da identidade nacional. Somos o país com mais títulos e ainda sim cornetamos a nossa seleção há anos. Faz parte da nossa identidade. Nunca temos o melhor time, sempre temos perna de pau. Cornetamos não apenas na derrota, mas antes dela e até mesmo na vitória. A tristeza que fica nessa copa não é a humilhação dos 7x1, mas a oportunidade perdida para vingarmos Barbosa. A oportunidade perdida para curarmos essa ferida que nos foi herdada. A ferida de quem não conseguiu ganhar em casa.

9 comentários :

Vivi disse...

O Brasileiro da atualidade se inferioriza porque é confortável. Além do mais, existe a necessidade orgasticamente incontrolável de ser O/A metido a engraçadinho/a do momento. É uma forçação de barra sem fim.

O 7x1 foi humilhante? Demais. Nem tanto pelo placar, mas principalmente pela desmotivação do jogadores. Como, de uma hora pra outra, a Seleção mudou tanto?

Enfim. Como torcedora da Seleção Brasileira desejo mais foco na próxima, porque talento nós temos.

Muito amor... disse...

Patricia, vc me faz refletir de um jeito muito bem humorado por meio do relato de suas experiencias da vida-a-vida e adoro seu amor pela literatura tbem... Agora admiro-lhe mais ainda pq vc me fez ter um olhar totalmente diferente relacionado ao futebol. Nunca li nada que tocasse exatamente no cerne do tema... Gratissima.

Julia disse...

Concordo plenamente com você. Imagino que tenha sido pior em 50. O gol do Uruguai foi perto do fim do jogo, deve ter ficado aquela sensação muito forte de "quase".

Mas acho também que depois desse 7x1 muito pouco vai se voltar a falar de 1950.

O complexo de vira-lata dos brasileiros é uma coisa que me irrita muito já que tenho um orgulho genuíno do meu país. Não consigo entender.

Mas talvez esteja no nosso destino só ganhar na casa dos outros. Não faço questão de ganhar em casa, talvez brasileiro não seja muito bom de aguentar essa pressão (falo dos jogadores), somos muito emotivos.

O que importa é ganhar e confio que poderemos fazer isso na Rússia.

Julia disse...

Só enfatizar que não vi nenhum problema nos jogadores chorarem, aliás as críticas a isso me irritaram muito, mas a pressão em cima deles era insuportável.

Acho que estaremos mais leves em 2018.

Anônimo disse...

Tú é chata pra caralho hein

Rosana Tibúrcio disse...

Que maravilha de post!!!

Taynara Barreto disse...

Post perfeito!
Tenho nem o que comentar por cima.

Karol Albuquerque disse...

Melhor texto sobre o 7x1. Perfeito.

nah disse...

apenas <3 <3 <3