sexta-feira, abril 18, 2014

obrigada, gabo

Quatro pessoas me ajudaram a ser quem eu sou sob uma perspectiva positiva. Minha mãe, minha vó, Fernando Pessoa e Gabriel García Márquez.

É uma morte que eu aceito. Não há outro caminho. A vida tem dessas coisas.

Estava dentro do ônibus, indo encontrar com amigos, quando li a notícia no telefone. Chorei no ônibus, na rua e no Angu do Gomes. E dando graças a deus de ninguém ter chegado ainda, pude chorar em paz. Pude ter o meu momento sozinha.

Já vinha me preparando, como se ele fosse um parente. Quando a gente descobre "seu avô teve um derrame, teve umas complicações e está mal", e a gente só espera pelo dia da notícia. Eu vinha me preparando para esse dia, como quem espera o avô morrer no CTI, como esperei a minha vó morrer. Com resignação.

Quatorze anos eu tinha quando li Crônica de uma morte anunciada e me maravilhei com aquela "inovação" de contar uma história pelo fim. Entre aspas porque não é bem uma inovação, mas para mim, naquele altura da vida, era. O amor nos tempos do cólera veio depois e chorei muito com Florentino Ariza esperando por Fermina Daza durante 51 anos, nove meses e quatro dias. E logo depois o ápice da literatura universal: Cem anos de solidão. Seguido de todos os outros livros dele. 

Pode ser que daqui uns anos eu leia tantos outros livros e mude de ideia, estou sempre aberta para isso, mais ainda não aconteceu. Cem anos de solidão segue sendo, desde os meus 16 anos, o melhor romance de toda a literatura universal para mim. Como pessoa que já escreveu, tenho a mania de ler livros e pensar em outros caminhos para contar a mesma história. Lendo esse livro, eu não mudaria uma linha sequer. Perfeito do início ao fim. A saga de uma família sendo contada da forma mais apaixonante já vista. García Márquez foi responsável pelo meu céu e pelo meu inferno como escritora. Céu, quando aos 15 anos, após ler O amor nos tempos do cólera, decidi o que queria ser: escritora. Eu queria ser aquilo ali, tudo o que ele era, jornalista, escritora, esquerdista. Inferno, quando aos 16 anos, após ler Cem anos de solidão, constatei a impossibilidade do sonho, nenhum outro escritor no mundo conseguiria se igualar a ele, e, para quê ser escritor, se eu jamais superaria o Gabo? Não me contentei em não ser igual a ele, em não ter o mesmo talento. Após ler o livro, chorava por todas as tragédias dos Buendía, e chorava também porque pensava "isso é ser um escritor e, infelizmente, não fui agraciada com esse talento".

Sou ateia igual a ele. A pessoa morre e acaba ali. Mas é impossível morrer quando se deixa a herança que ele deixou. É a vida eterna para nós. Enquanto durar a literatura, Gabo será eterno.

Obrigada por tudo, Gabo. Obrigada por me ensinar tantas coisas através dos seus incríveis personagens. Por me fazer sonhar com mulheres levadas pelos pássaros. E com mulheres que morrem e continuam com os seus cabelos crescendo. Obrigada por me dar a maior lição de guerra do mundo, que não há ideal na vida que mereça a baixeza de se igualar ao inimigo. Obrigada por me dar o coronel faminto e sua esposa que cozinha pedra. Obrigada pelo patriarca louco e o bebê monstruoso sendo levado por formigas. Obrigada por Melquíades e o gelo. Obrigada por me dar uma matriarca igual a minha, nunca vi muita diferença entre a sua Úrsula e a minha Áurea. Obrigada por toda a fantasia da sua obra. Você é eterno.

11 comentários :

Anônimo disse...

Não chorei não, porque também já era esperado, mas fiquei triste pela morte... e indignado por ser relembrado da quantidade gente imbecil que existe nesse mundo. Porque chega um bosta de um Reinaldo Azevedo daqueles pra chamar o cara de idiota e estúpido quando o corpo do cara não tinha nem esfriado ainda, pura e simplesmente por defender ideais diferentes dos dele... e uma cambada de retardado que não deve nunca nem ter lido um livro na vida vai pela cabeça do idiota-mor lá, e insulta o morto junto. Vou te contar viu, só tem artista nessa internet.

Lélia Maria disse...

Emocionante seu relato. Tb fui tocada por ele. Gabo me ensinou a ler.

Helô disse...

Quanto sentimento em seu relato. Obrigada pelo lindo texto.

Livia disse...

Melhor texto sobre Gabriel Garcia Marquez que eu li até agora. Se isso que você tem não é talento, eu não sei o que é.

Anônimo disse...

O que houve com o "esquerdista"?

Edp disse...

Gostei muito do seu relato.

Eu acabei de ler 100 anos na sexta. Foi meu primeiro livro dele e peguei sem querer, esperando que fosse ruim, um daqueles livros com muita fama e bem chatos (tipo, On the road to Kerouac que eu ao mnos achei Zzz).

Mas pelo contrário, é um dos melhores livros que eu já li e mais loucos também; li ficando angustiado com as loucuras dos Aurelianos e Arcadios, gostando cada vez mais da Ursula, rindo com a Remédios, a Bela e com a Fernanda e seus médicos invisíveis.

No instante que acabei fui mandar uma msn pro meu amigo que emprestou o livro e coincidentemente tinha uma msn já dele, dizendo que o Marquez tinha morrido. Tá, o autor estava doente, mas de todo modo...

Agora vou ler o restante; Memórias de minhas putas tristes é o próximo, pois esse mesmo amigo tem ele.

Paola disse...

Assim como você, acho que a literatura forma a gente ao longo de toda a vida. Nem todo mundo consegue expressar como esse legado se sedimenta na nossa alma. Eu acho que teu texto abriu essa "janela".
um beijo,
Paola

P.S. Lucas disse...

Não imaginei que você ia escrever um texto assim. Não imaginava que você gostava dele.

Eu gosto porque você se entrega tanto quando escreve assim. Você é tão livre nesse momento.

Abraço,

Leandro Faria disse...

Muito bonito seu texto. De verdade.
Me emocionou.


Você já leu Doce Gabito?
Não é dele, mas uma grande homenagem a ele.
http://www.popdebotequim.com/2012/03/doce-gabito-de-francisco-azevedo_29.html

Bjos

lilu disse...

patricia, comenta essa temporada de survivor que está bem legal!

Anônimo disse...

Algum texto da Patrícia ensinando o "expecto patronum"? Algo do tipo "como lidar com dementadores: faça você mesmo" etc? Bem que podia rolar...