segunda-feira, agosto 19, 2013

¯\_(ツ)_/¯

Hoje, refletindo dentro do 222, pensei sobre o círculo vicioso de como agosto se transforma no mês mais pesado do ano. Não é apenas por causa do meu pai e em todas as experiências traumáticas que formaram a minha vida. Não é apenas lembrar do dia dos pais no colégio. "Patricia, seu pai morreu?". Não. "Mas por quê ele não veio?".

 ¯\_(ツ)_/¯

Jamais poderia dizer "porque ele não quis", mesmo com oito anos ainda tentamos resguardar um pouco de dignidade.

É tudo meio ridículo, sabe. A pessoa com quase 30 anos na cara e alguém pergunta "mas gata, por que você não gosta de aniversário?", e você mentalmente responde "porque papai bebia e dava vexame em toda festinha, porque aniversário, junto com natal, significava a hipocrisia de ser o único dia do ano em que eu não apanhava" e por aí vai. Eu tenho consciência de que é ridículo culpar o pai por tudo que deu errado. Claro que não é apenas isso.

Então, hoje refletindo, lembrei dos últimos dias. Esses mesmos dias que antecedem o fardo todo que está por vir. Eu aqui, pequenina, acuada. Eu preciso ver as pessoas, é a minha forma de pedir ajuda.


Silencio no hay banda.


Agosto já começa assim. Sempre.

Eu sabendo que não há para onde correr. Antes. Veja bem, eu tentei. Quando chega o dia, todos chegam. Mas aí eu já fui embora. A gente cansa e acaba fugindo.

Cansei de tentar. A última vez foi em 2004. No final fiquei olhando 3 pessoas que nem meus amigos eram naquela altura. Estamos aqui só pra preencher a cota, as duas horas de presença vip prevista no contrato. Eu desisti. Jamais tentarei de novo porque aquela não foi a primeira nem a segunda. Meu objetivo é chegar o dia em que todos esqueçam (não está longe de acontecer). Aí terei o esquecimento total como um grande prazer a ser trabalhado. Quem se faz presente uma vez não é diferente do pai que deixa de bater uma vez por ano. É tudo muito incomodo.

Mas uma coisa positiva é que parei de culpar as pessoas. Ainda não parei de culpar o pai, mas caminho para. Ninguém tem culpa se eu espero demais. Então o que me resta sempre é voltar para a toca, fechar o buraco e não permitir que ninguém entre, porque ali eu sei que não vou me machucar.

Mentira. É aí que entra aquele círculo cruel do Fernando.

"Mas a exclusão, que me impus, dos fins e dos movimentos da vida; a ruptura, que procurei, do meu contacto com as coisas levou-me precisamente àquilo a que eu procurava fugir. Eu não queria sentir a vida, nem tocar nas coisas, sabendo, pela experiência do meu temperamento em contágio do mundo, que a sensação da vida era sempre dolorosa para mim. Mas ao evitar esse contacto, isolei-me, e, isolando-me, exacerbei a minha sensibilidade já excessiva. Se fosse possível cortar de todo o contacto com as coisas, bem iria à minha sensibilidade. Mas esse isolamento total não pode realizar-se. Por menos que eu faça, respiro; por menos que aja, movo-me. E, assim, conseguindo exacerbar a minha sensibilidade pelo isolamento, consegui que os factos mínimos, que antes mesmo a mim nada fariam, me ferissem como catástrofes. Errei o método de fuga. Fugi, por um rodeio incómodo, para o mesmo lugar onde estava, com o cansaço da viagem sobre o horror de viver ali."


As coisas mínimas que ferem como catástrofes. A vontade é construir um túnel do tempo, ir para Lisboa nos anos 20 e abraçar o Fernando. Te entendo muitíssimo.

8 comentários :

Verônica disse...

falei exatamente isso hoje: queria voltar no tempo e abraçar Fernando, porque ele me entenderia.
meu pai tá vivo. parei de culpá-lo depois de anos de análise, mas ainda não me reconstruí. alguns cacos, ele levou consigo para me impossibilitar de viver, eu acho.

Tomás disse...

Miabraça, se faltar Fernando. :(

Anônimo disse...

Porra, muito foda esse texto aí. Também te entendo, infelizmente.

Anônimo disse...

'-'

Yaciara disse...

Pais fodendo a vida dos filhos desde o tempo de Adão e Eva. E se hj eu to tão destruidinha, eu o culpo, mas o ignorarei. Para sempre.

Paola disse...

lindo texto. estou vivendo um semi-isolamento forçado que tem me feito pensar duas coisas. a primeira: eu odeio o isolamento forçado. e a segunda: será que antes do isolamento forçado eu não me sentia obrigada a socializar mais do que gostaria?
tem sido uma fase de repensar bastante a relação com as pessoas depois que o isolamento forçado chegar ao fim. certamente, muitas serão limadas pq são excessos desnecessários na minha vida. acho que esse cálculo é positivo. mas ainda tenho pavor do isolamento total.

barely breathing disse...

esse isolamento forçado e algo que entendo tão bem.
já ouviu a música 'caroline', de jonh butler trio? eu acho ela incrível.
beeijos

Ana Caroline disse...

Tipo eu com carnaval... e por motivos semelhantes.
E pior que as pessoas não se contentam com um simples: não gosto porque não gosto.
Daí vc se explica e fica todo mundo com cara de "não devia ter perguntado".
É, não devia mesmo!