quarta-feira, outubro 19, 2011

sobre os buracos

Estava lembrando outro dia daquela cena de Uma linda mulher, quando Vivian e Edward vão para um evento e ela se diverte tapando buracos em um campo. É um esporte antigo da realeza, mas esqueci o nome. O que é a minha vida senão um campo cheio de buracos? E com a idade chegando vou tentando consertar, dando um jeito, tentando deixar o melhor possível.

Então, eu decidi que ia procurar o meu avô por parte de pai.

Acho engraçado como a vida dá mesmo as famosas voltas, mas até que você se depare com uma, não presta tanta atenção na frase. A vida dá voltas. Minha vida inteira passei com mamãe dizendo que eu devia procurá-lo, que era a minha família e blablabla. E a minha resposta sempre foi "a minha família é a sua família, mãe", porque um dia eu realmente pensei que a corja dos Gonçalves fosse a minha família, meio que cagava para todo o resto. Hoje, eis-me aqui, jogando no limbo essa corja e correndo atrás de recuperar o laço que eu nunca quis. De certa forma eu os culpava, culpava não só a família dele, como o país etc, nas famosas radicalidades tanto presentes na minha raiva. Sempre quis que o Uruguai se fodesse em todos os aspectos. Maturidade, a gente se vê por aqui.

E enfim. De Buenos Aires para Montevideo são 3 horas de barco. Achei que seria importante ir. Fechar esse ciclo e tudo mais.

Liguei para o meu avô do hotel. Atendeu a esposa dele. Mi esposo falleció en enero. E eu lembro do último telefonema dois anos atrás com ele dizendo que queria me ver antes de morrer. E choro todas as lágrimas pelos 28 anos que nunca tivemos. Que eu nunca quis ter. Que assim como a minha vó teve filhos ruins e não teve culpa, talvez com ele tenha sido igual. Nunca tive uma sensação de arrependimento tão forte como tive na sexta. Saber que quando eu estava disposta a dar o primeiro passo já era tarde. Dói. Vontade de pedir desculpas por não ter ido antes, vontade de voltar no tempo, de ter escutado mais mamãe e tantas outras vontades impossíveis de realizar. Não queria ter tantos buracos para tapar. Não queria que esse buraco agora intapável doesse tanto. Desculpa, Ramón.

28 comentários :

Anônimo disse...

:´(

Anônimo disse...

Me arrepiei. :(

guilherme disse...

______o______

Anônimo disse...

Patrícia,

sinta-se abraçada. [ ]

marquinhos disse...

nusss!!! bacana isso!!!! vc tapou o buraco do ressentimento!!!!

Valerie disse...

Ele te leu, certeza.

Panosso, Luciana disse...

Uma coisa é certa, ouça a sua mãe, sempre. Pode não fazer sentido na hora, mas vai fazer um dia, e pode ser tarde.
Aconteceu comigo, não com um fato tão triste, mas com uma coisa que eu tive como consertar a tempo ou a minha própria vida ir andar pra tras eternamente. E eu aprendi.
Fica bem.
Beijos.

'Lara Mello disse...

Chorei com o texto..
Umas 2 semanas atrás meu pai, que não tenho contato algum, me ligou e perguntou se eu perdoava ela.. Não perdoei..
O texto chegou exatamente neste lugar..

Fabi disse...

esse foi triste!! nossa! :(

Rita disse...

orgulho é foda
más a dor é grande
da pra entender e infelizmente não da pra voltar atrás

_______o_______

Juliana Egete disse...

Sinta-se abraçada, muito!

Engraçadinha disse...

Ramón deve ter visto o seu esforço e provavelmente se deu por satisfeito tendo uma consciência maior da vida, agora que partiu.

O legal Patrícia, é que agora vc está caminhando e tentando entender. E creio que seja só o começo. Não te conheço é verdade, mas aconteceu comigo, de eu tentar ver as coisas por mim mesma, ao invés de ficar enclausurada na raiva e na inércia que a raiva provoca.
Go girl! É isso aí!

Gato Van de Kamp disse...

Tal como todo mundo eu tb me arrepiei e comovi e tals... Mas olha, não se culpa gata.. Pk é isso, sabe?? Vc fez uma escolha com o q vc dispunha até um dado momento da sua vida... Com as informações que tinha, com a maturidade que deu... É foda mesmo , mas é o q tem pra hj e não deu pra ser diferente pk qdo ainda era possível, vc n estava pronta... E qdo esteve pronta já n era mais possível...

Vida que segue...

Madame disse...

Nossa, fiquei em choque...nem sempre acertamos, faz parte da vida...sempre culpei meu pai por ser alcoolatra e nao ligar pra mim,mas sera que ele nunca ligou pra mim mesmo? Ele morreu e nem no enterro fui chamada.
Acho que as coisas deviam ser assim mesmo, pq agora, aprendemos uma grande lição, que ressentimentos nao levam a nada.

Anônimo disse...

ah, patricia, sinto muito.

abraço

kezia disse...

ai guria
poxa, um abraço forte. só isso.
beijo

gláucio s. disse...

:(
Se cuida!

Rosana Tibúrcio disse...

Concordo com Gato Van de que naquele tempo não era a hora, pelo que te faltava para te ajudar.
Não se culpe tanto, porque agora, com as informações e sentimentos que tem, vai ser mais fácil acertar e perceber lá na frente que os erros - que você não deseja mais cometer - estão diminuindo.

Você é uma menina grande. Dê cá um abraço.

Anônimo disse...

Oi, Patrícia! Aqui é o "segundo" anônimo, que te escreveu aquela vez sobre te perdoar.

Essa situação é bem sobre isso. Acho que tu tem que chorar, se isso te faz sentir mais aliviada. E dá pra entender que tu se sente culpada. Mas olha, te perdoa, de verdade. Antes tu tinha raiva, reagiu à uma situação, FEZ O QUE ACHOU QUE ERA CERTO e, nesse caso, ERA CERTO porque tu agiu conforme teu sentimento. Sendo assim, não errou. Claro que a história é triste, mas pensa que tu cresceu quando se dispos a passar por cima de tudo, entendeu o lado do teu vô e tentou procura-lo. Tenho certeza que ele se orgulharia muito disso e te perdoaria também, caso estivesse magoado, mas tenho certeza que não, pois certamente sabia que cada um tem seu tempo.

Um beijo

Rafagoom disse...

Estou protelando encontrar meu pai depois de 20 anos sem o ver há dois anos que o encontrei na internet.
Seu texto mexeu muito forte comigo.
Sinta abraçada.

Ana Cristina Cattete Quevedo disse...

Ai, que mierda.


_____________o______________

Beijos

SilviaCris disse...

Patrícia, eu simplesmente amo as coisas que você escreve!

Letras Saltitando disse...

Tua familia do Uruguai? Minha familia toda é de lá.

Mas esse sentimento de culpa, é absolutamente normal. Não adianta. Uma vez um professor meu, que é legista, disse em plena sala de aula: "a vida é curta demais pra alimentar rancor, raiva e etc, depois a pessoa passa pro outro lado e vcs vão morrer chorando a vida toda".

Cada situação na nossa vida, é um aprendizado e só vivenciando ela, é que conseguimos absorver. As vezes não adianta conselhos de mãe, amigos e etc, a gente precisa viver tal coisa.





Bola pra frente

Letícia Mariano disse...

Patrícia,
Eu não quero parecer maluca, mas prefiro pensar que, onde quer que ele esteja, ele está vendo ou sentindo o carinho que você doou para ele. E para estas coisas maiores não há o tempo linear como o conhecemos.
Você só estava pronta para o encontrar agora, e não há dois anos. E, mesmo tendo falecido, você é, como neta, uma parte dele. Ele ainda vive em você.
Não se culpe por isso, não vale a pena carregar o mundo nas costas.

Bjs

Anônimo disse...

Nossa! Mexeu comigo seu texto.
Tenho um relacionamento conturbado com meu pai (ou melhor, não tenho relacionamento) e gostaria de tentar uma reconciliação. Já até tentei, mas não fui feliz pq não depende só de mim. Espero conseguir um dia antes que seja tarde.

Pra vc eu gostaria de dizer muita coisa, mas vou ser sincero que nem sei direito o que dizer.
A vida é um constante aprendizado, tenho certeza que vc tirou uma grande lição dessa história e vai passar a agir diferente em outras situações na sua vida.

Bjs e força

Taynná disse...

Putz mulher,
nunca achei tão forte algo que você tenha escrito.

=/

Sinto muito, espere que você agora tente tapar mais depressa todos os outros!

TatiPy disse...

É o tipo de coisa que acontece na vida. De a gente fazer uma escolha que já não é possível. Como antecipar o fechamento de uma porta? Não tem como.

Não se martirize. Você não tem culpa, nem ele. Apenas não aconteceu nessa vida. E ele deve saber que vocês não se encontraram porque o tempo nçao permitiu.

Que seja, enfim. Bola pra frente!
Bjs

Mesquita disse...

Não tenho palavras, apenas posso te oferecer um abraço bem forte.