quarta-feira, outubro 12, 2011

fix you

Eu tenho uma dificuldade imensa com crianças em geral. Não aquela coisa de achar chato, mas de me incomodar. Quando alguém me diz "segura aqui o bebê", e nossa, que vontade de sumir, e daí eu dou a desculpa clássica "tenho medo de deixar cair no chão", mas claro que não é isso. Tenho pavor de que deixem crianças para eu cuidar, naquele esquema "vou ali experimentar roupa no provador, você cuida da minha filha?". Não, minha senhora, cuido não. Aquele pavor de quando entra uma mãe com criança em ônibus/avião, fecho os olhos pedindo a deus "por favor, não sente aqui".

Não fui uma criança feliz. Pelo contrário, posso dizer sem pensar duas vezes que a infância foi a época mais infeliz da minha vida. Justamente na época em que a sua casca se forma, seus sonhos, seus medos, suas fortalezas. O início de tudo, e a prévia que eu tinha era essa: a escuridão.

Os tapas na cara, as bonecas quebradas, os cachorros e gatos torturados nas férias em Minas. Tento lembrar quando a agressividade deu lugar à resignação. A raiva nunca foi embora, mas em algum momento da minha trajetória eu fui, felizmente, para outro caminho. Não o caminho da felicidade, mas ao menos não tomei o caminho mais infestado por demônios.

Claro que as sequelas são fortes. Medo. Incapacidades sociais. Fragilidade. Quando a vida é arrancada de você, não há muito a ser feito. Só esperar. Um dia de cada vez. Torcendo para o vazio interior não me tornar ainda mais incapaz. A sensação é essa mesmo. Tudo foi extraído e a gente vai tentando viver com o nada que sobrou.

Volta na dificuldade com crianças. Olho para elas e lembro da época mais infeliz, quero fugir de qualquer jeito das lembranças, e desejo realmente que elas não passem pelo mesmo calvário que eu passei.

14 comentários :

Taynná disse...

Primeira vez que eu não tenho o mesmo gosto que você... rs

Fui feliz pakas na infância, corria na rua até santa madrugada, sem blusa, parecia mais um moleque mesmo... Adoro crianças e filhos pretendo ter pelo menos dois!

Mas boa sorte aí!

=)

'Lara Mello disse...

Eu até fui feliz na minha infância, apesar de tudo.. Adorei sua sinceridade :)

Rosana Tibúrcio disse...

Patricia, espero não dizer merda, quer dizer, não ser muito merda o que vou dizer, mas... vamos lá:

penso que a cada linha que você escreve desabafando suas dores, principalmente aquelas que te moldaram, você fica mais leve. Ou deveria. Deixe, vá?.
É como se você se desse a oportunidade de pedir pra que cada um de nós, que te gostamos muito, te desse a mão, um abraço ou carregasse um pouco de sua dor.

Olha, do meu jeito tento de acompanhar e te ajudar a carregar um pouco essas tristezas, esse passado: com meu abraço, meu afeto, meus melhores pensamentos, minhas orações (sim, eu creio e elas não te farão mal, pode confiar em mim). Feliz dia!!!

Gisa disse...

Tambem nao gostei da minha infancia. Acho que as piores coisas que aconteceram em minha vida aconteceram naquele periodo ali. Mas, por um desses insondàveis mistèrios da natureza,reagi de forma diferente: gosto de criança pra caramba e odeio a Xuxa, piu-piu e tudo que me lembra aquele periodo. E nao tem nada a ver com seu post mas eu continuo me perguntando: quando è que o frajola vai conseguir comer aquele pintinho estùpido??

Juliano Correa disse...

Na faculdade eu li um livro de um professor meu chamado "O Ardil da Criança" (Melo Neto, Gustavo A. R.). O autor mostra que a idéia de infância como um período inocente e feliz é uma falácia criada por adultos frustrados (suuuuuper resumo tosco, mas é mais ou menos isso). Não se culpe por não gostar da infância, a maioria das pessoas não gosta mesmo.

Madame disse...

que pena ne que foi assim.

Anônimo disse...

eu tinha escrito o maior desabafo aqui, mas apaguei. a verdade é q se eu tivesse sido agredida e abusada, ia achar q o resto todo do mundo tava de frescura, se fazendo de vitima. então n vou contar minha historia de tristeza pra evitar essa comparação com a sua, respeito mto a sua dor.

basta dizer q eu achava q era feliz, minha vida tinha um moooonte de merda tb, as vezes eu ficava muito triste com varias coisas, mas geralmente me contentava em me refugiar no meu universo infantil particular pra n pensar na tristeza. faço isso até hoje, actually, escapismo mesmo.

a primeira vez q eu vi q era triste meeesmo foi aos 11, já entrando na adolescência. as coisas já estavam lá antes, mas as lágrimas e o desespero só vieram nessa época, com a chegada de novas tristezas.

daí, talvez por ter essa ilusão de falsa felicidade anterior, eu até gosto de bebês e crianças pequenas (crianças grandes q imitam trejeitos e falas dos pais me irritam. mas até os 3 aninhos, por aí, elas ainda são bastante autênticas)

mas n sei se quero ter filhos, nao. acho q provavelmente vou ficar solteira, seja por ninguém interessante me querer, seja por n achar ninguem interessante.

e estrutura pra criar filho sozinha é complicado. até cogito, se eu ficar rica. seria uma especie de projeto, de recomeço pra mim. mas acho uma coisa fodida vc ficar projetando frustrações no filho, ele n existe pra te alegrar, pra te fazer cia, e essas são as minhas únicas motivações, por enquanto. por isso ainda tenho dúvidas.

Anônimo disse...

resignação tem um efeito anestésico. fica mais fácil lidar com os problemas. pena que descobri um pouco tarde.

Mesquita disse...

Gosto da coragem que você tem de escrever sobre as suas fragilidades.

Um Abraço forte!

Mesquita disse...

Adoro <3Fix You<3 também!

Vanessa S disse...

Tô no seu grupo, Patrícia. Minha infância também foi ferrada e tenho esse mesmo pavor de criança, bebê... De vez em quando abro exceção para brincar com alguma criança quando vejo que ela é bem peste... Não sei pq mas me dou bem com crianças atentadas, na verdade eu não. Elas que cismam de ficar atrás de mim.
Enfim, só sei que não quero filho não tenho nada de bom para ensinar. Imagina um filho me perguntando sobre sonhos e eu respondendo o quanto a vida é uma merda? Não dá.

Anônimo disse...

Nossa, fiquei sem palavras. apenas me bateu no peito uma tristeza lendo sobre sua infância, os tapas e os maltratos aos animais.

e o q me dói mais é ver o quão injusta foi a vida fazendo isso com alguém tão bacana como vc.

__o__

De verdade.


Janah.

Leandro disse...

Eu já comentei, muitos já comentaram mas porque você foge da psicanálise? Supondo obviamente que vc não foi, pelos relatos.

Tudo isso é remoído, relembrado, e uma palavra boa utilizado no curso de Psi., ressignificado, o que proporciona ir adiante. Tudo bem que dói muito, em muitas sessões se sai destrupido, mas depois de algum tempo vemos uma mudança, mesmo que não comportamental, interior. Fica a dica

Bjs, e mesmo sem te conhecer, te gosto muito!

Engraçadinha disse...

Te lendo, às vezes sinto que vc precisa ser abraçada e afagada longamente sem palavras.
Todo mundo merece se sentir aconchegado e seguro.
Você também!