quarta-feira, julho 06, 2011

manual de como agir na vida: não tenho

Dá muita angústia conversar com ela, porque ela sabe de tudo. Então, vou lá despejando todas as amarguras, todos os recalques, todas as opiniões raivosas, e mamãe fica em silêncio. E eu tenho que perguntar "o que você acha?", "e aí, alguma coisa?", para ela dar de ombros e dizer "não sei, minha filha". E eu sei que dentro desse "não sei, minha filha" está todo o tratado de meu-deus-como-eduquei-mal-a-minha-filha. "A vida não é assim" etc, a tal leveza que ela sempre achou necessária e nunca tive. Eu queria tanto não me importar com essa família, eu queria tanto aceitar que algumas pessoas são escrotas e pronto, seguimos a vida. Porque ela segue a vida, enquanto eu estou aqui estagnada pensando em todas as vinganças possíveis, eu quero sangue. Diariamente penso na morte dele e em como eu vou rir da situação. Claro que isso não faz bem. Não tenho esses pensamentos nobres só com ele, mas com todo o resto omisso. Com Tia Neném que, por deus, Gilbertão se inspirou numa tia minha. Na pior. A que se faz de vítima, a que se faz de grande defensora, mas opa? achou um cu e tá metendo. E vem o "não sei, minha filha". Não sei bem se é por aí. Acho que você está errando o caminho. Relaxa. Enfim. E não dá.

Quando eu era criança e saia com a minha mãe, ficava admirada em como ela sabia onde estava em qualquer lugar. Lugar onde eu nunca tinha ido e ela "isso aqui é Caxias, a gente tem que pegar o ônibus tal". Ela nunca estava perdida. E eu, com 5, 6 anos, só pensando "como mamãe sabe disso tudo? ela conhece o mundo inteiro". Sempre me sentia segura estando com ela, porque ela sabia sempre onde estava. "Temos que descer nesse ponto aqui". Sabia de tudo.

Tem uma passagem do Kafka onde ele diz: "você era grande demais e eu demasiadamente pequeno". E as razões do trauma dele são outras, mas no fim é tudo isso. O modelo que é sempre melhor. Da forma como nunca atingiremos a perfeição. Costumo dizer que a vida demora a passar, mas é porque não sou feliz. De fato a vida passa bem rápido. E ano após a ano eu continuo não sabendo como levar as coisas. Não sabendo que ônibus pegar. Resumindo. Não sabendo.

24 comentários :

marcela disse...

eu peguei o ônibus errado.... só que ele estava cheio por isso me sentia tranquila e tal.... só que aos poucos todos foram descendo e... tchan tchan tchan tchan!!!!....fiquei sozinha. é assim, tenho a impressão de que todos conseguem de um jeito ou de outro resolver seus problemas e eu estou aqui dentro do ônibus com as portas e janelas fechadas sem saber o que fazer, sem ar, já quase totalmente sem forças... e em todas as horas de todos os dias eu penso em desistir, porque eu tento sim, eu juro. eu bato nas janelas, nas portas mas não consigo abrí-las... estou muito fraca. vou confessar que também não faço muita força, talvez não queira, sei lá....................

Anônimo disse...

Cara, Adorei. Pacere a minha vida kkkk.
A mãe idêntica, a tia mais ainda(até o apelido) é muita coincidência (ual). vou continuar seguindo.. ate mais :*

Anônimo disse...

eu sou o sobrevivente da candelária que sequestrou o onibus 174...

@paulilinha disse...

Por Deus, Patricia, li seu post e pensei demais sobre meu relacionamento com minha mãe.

Li a primeira frase e é bem o que eu penso sobre minha mãe. Porque sinto muita angústia. Aí penso que devo logo ganhar meu dinheiro e sair de casa mas aí lembro que isso não muda o fato de que ela vai continuar a mesma, sempre justificando suas respostas com "tenho o dobro da tua idade, eu SEI um tanto mais da vida do que vc". E isso me doi horrores porque, porra, eu não sou criancinha, eu tb sei viver e tenho sentimentos e vontades.

Não que eu queira deixar de falar com ela, pelo contrário. Eu só queria que fosse mais fácil.

Percebi lendo seu post e pensando aqui que o que eu achei que fosse a solução dos meus problemas (arranjar dinheiro, sair de casa) na verdade não é.

E te entendo muito. Acho que saber que não estamos sozinhas com esse sentimento de certa forma ajuda, né.

Sou só amor pela minha mãe, que é maravilhosa com todos os seus defeitos. Mas choro pensando em como a gente podia ter sido e não foi. E a culpa não é só dela.

Caco disse...

Patrícia, eu sei que é difícil, mas possível: tente não se importar tanto com os outros. Se importe sim, mas no bom sentido, de ajudar, de querer bem. Pra quem você não gosta, não curte, não dê bola, esqueça, você não vai mudar ninguém mesmo. Se concentre nas coisas boas, nos seus amigos, nas pequenas coisas que lhe dão felicidade. Como dizem: "A felicidade está nas pequenas coisas."

Maeve Rêgo disse...

Ah, a tão sonhada leveza...

escrevi sobre isso inda ontem. Se achar, passa um cadim pra mim, tá?

AquilesMarchel disse...

e assimc aminha nossas vidas

Bianca disse...

A gente se apega muito por que né? é toda uma pressão, todo uma idéia formada que a gente compartilha de que isso é bom, isso é ruim... e meu, nem é.
se desvencilha disso.
já disse a Deus e o mundo que tô no aguardo do dia em que meu pai vai SE FODER e precisar de mim e eu vou dizer, "me dá minha grana e num rela nimim!" até a meu namorado que JURA POR TUDO que eu sou a pessoa mais doce que ele conheceu (tá mal o bixinho) já ouviu isso e não acredita.
ok, fica aí sem acreditar.
mas é isso. eu ficava me martirizando por ter esses sentimentos e hoje, quando eu simpesmente ACEITEI que sinto isso e que sou assim... tá até mais leve. juro.
não vou gastar energia atrapalhando a vida dele. deixa, lá na frente ele se fode sozinho e eu me divirto, ou não. mas aí eu não vou ficar puta pq gastei energia a toa. não se fodeu pq eu não me mexi, e meu, dou um rim pra nao ter que LIDAR com as coisas e tal. enfim. nunca comento.resolvi comentar hoje.
acho q to de tpm.
um beijo,
fica bem

Anônimo disse...

ai! ta bm melhor assm o blog!
só acho que la em cima deveria ter o resto das cenas q vc tirou!!!
bjo.

Natália disse...

Nossa, eu sou totalmente o contrário. Minha mãe é qualquer coisa, menos um modelo de perfeição. Meu pai, eu mal conheci. Moro com mãe, vó, tia e vô. E, nenhum deles, é um exemplo a ser seguido. De maneira alguma.

Embora, pra vc, possa parecer ótimo (pq minha situação é bem inversa da tua), te digo: é um c*.

Não tive NINGUÉM em quem me espelhar e, por alguma razão, TODOS ESPERAM MUNDOS E FUNDOS DE MIM.

É muita pressão em cima de mim. Tipo, muita. Muita mesmo. Muita expectativa. Todo mundo acha que sou perfeita e que tenho que ser perfeita, que não posso errar. Só que eu erro. Tipo, muito. E aí... bem, o que eu ouço é BEM pior que um "não sei, minha filha...."

Sua situação deve ser uma b*sta. E, conselho é sempre um cu... Mas, vou dar um mesmo assim: se a sua mãe é um modelo tão bom q vc chega a se sentir oprimida por tamanha grandeza, tente copiá-la. E tente falar pra ela "mãe, to perdida.. me ajuda".

Se espelhar nos grandes não é fraqueza. E, olha, te garanto: é melhor ter referências e parâmetros a seguir do q viver num Hospício (meu caso) e só ter referências do que NÃO seguir, mas não fazer a MÍNIMA idéia de como ser... do que SEGUIR... Não ter um ESPELHO... Um modelo em q se inspirar.

Luisa Maria disse...

Ás vezes ela apenas não sabe mesmo... Vc não é sua mãe, e vai ver ela só não entende seu jeito de ser, o que não significa que vc está trilhando um caminho errado. É só um caminho diferente do dela e que ela não conhece, então não pode dizer qual ônibus pegar, né? Nossas mães não são infalíveis. São humanas.
Bjs!

jorgealison disse...

Ai, me identifiquei com a parada do ônibus.

Minha também também é assim.
Engraçado, néan. Deve ser coisa de mãe.

Zelma Rabello disse...

Cê sabe que ônibus pegar. Claro que sabe. Onde descer também. Mas quando se tem mãe é tão confortável!...
Aproveite!... E olha! Não é agouro, mas é que acaba. Aproveite!... Não faz que nem eu, que não dava valor até perder. Aproveite!...

Rafael disse...

Ninguém vem com manual, gata. E olha que tem gente por aí que diz que tem um manual ótimo chamado Bíblia. Eu, por mim, prefiro continuar não tendo.

Anônimo disse...

Desculpa falar de um assunto assim do nada, mas estava no face e uma amiga postou q estava rindo do Ricelli em Vale Tudo, quando ele disse:

"Pô cara, eu não transo violência!"

lembrei de vc contando do carinha lá em Jibóia. Tá explicado, ele devia assistir vale tudo. rsrs

Anônimo disse...

Sonhei contigo essa noite, e nem te conheço. Sonhei que a gente tava em um parque de diversões enorme tipo Disney para comer um sorvete do tamanho de um prédio de 8 andares (obs: não sou obeso, IMC=21) e daí era noite e um amigo nosso tava cantando uma música da Mariah Carey em que ela fica falando "I do, I do...". Tudo ficou escuro e quando as luzes se acenderam um outro amigo nosso, negro, te assustou enquanto o outro ainda cantava e tu deu um berro e saiu correndo pelas escadas dizendo que tinha visto o fantasma do teu pai que, veja só, se chamava Aido. Com a tua fuga por causa do trauma do susto, o pessoal do Pânico na TV, que tava filmando tudo, tava pensando em desistir de acompanhar nosso grupo. Fim.

Ana Luíza disse...

Gente, deve ser mt interessante conviver com vc.

mim disse...

Eu pensava exatamente a mesma coisa qndo andava de ônibus com a minha mãe. Como as mães sabem tanto, né?

Beijos

http://tantascoisasprafalar.blogspot.com/

Lee_lee disse...

Você, lurando ou não, sempre diz tudo SEMPRE certo, ainda que pelos meios mais "tortos". Dentro ou fora dos ônibus, espero que nunca confundam você com Deus: porque aí vai perder toda a credibilidade (ou lucidez)... Desculpa pelas firulas. Só pra dizer que sou fã.

sobrefatalismos disse...

Vivo em constante desorientação. Não consigo me deslocar de um ponto à outro da cidade que me parece gigantesca capital. Minha mãe sempre foi um rumo. Ela vai morar em outra cidade agora, longe de mim. E vejo que é a hora de eu caminhar sozinha.

Gostei daqui. E voltarei.

Ana Lu disse...

Nossa, eu sou mais perdida que cego em tiroteio. Uma vez minha amiga me deu carona e me soltou a 2 quarteirões da minha casa. 2 míseros quarteirões. E eu não tinha NOÇÃO de como chegar em casa. Pensa.
Minha mãe é total o meu rumo também, e eu ainda fico impressionada, como ficava aos 5, de como ela sempre sabe onde está e o que fazer.
Beijos!

Renata disse...

Amiga, se rola uma graninha extra aí, faz uma terapia.

Se não, esquece. Detesto quem recomenda coisas pros outros sem entender a situação financeira alheia.

'Lara Mello disse...

Li o texto no eufemismo sobre o ônibus errado e também me fez refleti.. Tenho a impressão que a cada ônibus errado eu tenho me perdido mais e mais.. Sorte!

Mariana Aguirre disse...

Eu sinceramente acho que tu deveria escrever um livro, sério mesmo, tipo : O anti auto-ajuda