domingo, agosto 22, 2010

losing my religion

Outro dia o Guilherme escreveu um texto que sintetiza tudo o que eu sempre pensei sobre pegar duas malas e vir para o interior do Mato Grosso.

As pessoas tendem a achar que a coragem e a covardia são conceitos fixos. Não pensam por um momento na quantidade de variáveis envolvendo as situações.

Um pai que pula na jaula de um urso para salvar o filho não está sendo corajoso. Age por impulso, porque é naquele único segundo que dá o estalo e ele pula na jaula, não dá para, nesse estalo, pensar "o urso pode matar nós dois". Impulsividade não anda no mesmo grupo da coragem.

Quem larga tudo (q) para trabalhar no interior do interior do Brasil, não está necessariamente sendo corajoso. Se você deixa para trás uma quantidade infinita de situações para resolver, você pode ser tudo, menos um exemplo de coragem. Quem fica, muitas vezes, é mais corajoso do que quem parte e leva toda a fama de fodão.

Na minha família tem uma história parecida com essa. A minha vó teve 8 filhos, e as duas mais velhas saíram de casa com uma mochila nas costas para o Rio de Janeiro. Até hoje, não reuniões da família, as farpas dos que ficaram fica evidente. Quem ficou teve que enfrentar a crise na lavoura, teve que enfrentar a fome, o descaso do patriarca que abandonou o lar para morar com outra. Enquanto minha mãe e minha tia ralavam muito no Rio de Janeiro, mas tinham o que comer. Aos olhos dos outros 6 irmãos, elas não foram corajosas, foram covardes porque não ficaram.

E agora, faltando poucos meses para eu ir embora, só penso na infinidade de problemas para resolver na volta para casa. Penso em várias alternativas, vários concursos que justifiquem eu ficar aqui ou ir para outro lugar mais longe (Amazonas, talvez). E então tudo poderá ficar como está hoje: eu chorando a distância do Rio de Janeiro, mas no fundo, aliviada por não estar lá.

16 comentários :

rayssa gon disse...

eu sempre me pego pensando se devo tentar a vida em outro estado/pais pra nunca ser incomodada com as merdas da minha familia. ou se devo só me mudar pra um bairro no extremo oposto da cidade (sampa) e assim, correr o risco da encheção de saco mas não ficar como a "pária" covarde.

cu.

Lucy disse...

ficar não é melhor, acredite, saia dai e vá para o rio, nada pode ser pior do que uma cidade onde as duas pizzarias reconhecem sua voz.

@paulilinha disse...

Mas,Patricia, você ao menos está ciente da situação.

Tenha força para vivê-las. Volte pro Rio, tente (!) resolver o que vc precisa, assuma essa responsabilidade.

Eu tentaria. E acho que vc tem forças pra isso. Você é melhor do que pensa.


Beijos

Cacau disse...

sempre julgamos os outros, nos 'colocando' eu seu lugar mas nunca saberemos os sentimentos alheios.
para uns covardia, para outros coragem ou impulsividade; mas cada um sabe 'onde o calo aperta' e as decisões tomadas são sempre as melhores que achamos no momento.

Anônimo disse...

mulher lança uma livro q eu compro!

Henrique disse...

O seu exemplo é melhor q o do Guilherme :)

Ana disse...

Porra Pat, que chato.Está pior do que eu pensava...Achei que voltando aqui pro Rio vc fosse se sentir melhor. Mas faça como eu quando tudo está uma merda (e by the way a vida não tá fácil pra mim)eu penso: eu ainda posso ver o Flamengo jogar e ficar no meio da minha nação.Pensa bem ,quando nada aqui no Rio vc vai estar fisicamente perto do Mengão.

Coala Fumegante disse...

"Pra onde vão os trens meu pai?
Para Mahal, Tamí, para Camirí,espaços
no mapa, e depois o pai ria: também
pra lugar algum meu filho, tu podes
ir e ainda que se mova o trem
tu não te moves de ti."

Hilda Hilst

Menina Eva disse...

Caso você venha ao Amazonas, seja por buscar uma chance ou por querer deixar coisas ruins para trás, terá em mim uma parceira. :)

guilherme disse...

é bem por esse lado, essa dicotomia, da covardia de ir e também tem a covardia de ficar, de empurrar com a barriga e se acomodar.

quando escrevi o texto, pensei na hora que talvez só você entendesse realmente o que é essa quase hipocrisia de ouvir "coragem" quando também tem todo o lado "covarde" da história.

____________o_____________

Anônimo disse...

Paty.. amo/adoro seu blog. Nunca comentei mas sempre acompanho! Mas hj tive q comentar... como assim geeente.. perto de vc ir embora ta querendo ficar?! what? pensei q era teu sonho voltar pro RJ. nós fãs q ficaremos triste sem historias hilarias de jiboia city

Patricia C. disse...

essa poesia da Hilda Hilst me fez chorar. diz tudo.

Matheus Vieira disse...

Você vai voltar pro Rio? Legal. Pelo menos foi uma experiência enriquecedora, né? hahahahahahah
Vou sentir falta das situações que você passa ai no MT ;(

Coala Fumegante disse...

ISSO é o verdadeiro inferno,não?

Anônimo disse...

tu vai voltar pro Rio?Mas vai deixar o cargo aí em Jiboia City??

Anônimo disse...

Ah acho que em qualquer escolha somos covardes e corajasos, sempre deixamos problemas a serem resolvidos, mas surgem outros logo a frente que estamos dispostos a enfrentar, no final das contas em vez de se perguntar qual atitude é corajosa, o que devemos questionar é o que vale a pena para nós, apenas isso, pq coragem e corvardia vão estar presentes em qualquer situação, agora vc ve coragem, mas mude suas lentes e verá covardia.