terça-feira, junho 15, 2010

like a rolling stone

Tem uma passagem em "Cem anos de solidão" que define o sentimento que eu tenho hoje.

Aureliano Buendía era um guerrilheiro e lutava contra as atrocidades de um general. Um dia alguém falou para ele:

O que me preocupa é que de tanto odiar os militares, de tanto combatê-los, de tanto pensar neles, você acabou por ficar igual a eles. E não há ideal na vida que mereça tanta baixeza.

O que fica é que muitas vezes o que você mais teme ou abomina, é exatamente aquilo em que irá se tornar. Eu nunca quis pouco, eu sempre quis tudo. Não me contento com o amor que me dão, porque eu acho pequeno. Então, sigo rechaçando qualquer possibilidade de. Nunca houve um contentamento com o que me era oferecido.

Posso enumerar várias situações de, como diz Fernando Pessoa:

Posso dizer, com aquela verdade que não precisa de flores para se saber que está morta, que não há coisa que eu tenha querido, ou em que tenha posto, um momento que fosse, o sonho só desse momento, que se me não tenha desfeito debaixo das janelas como pó parecendo pedra caído de um vaso de andar alto. Parece, até, que o Destino tem sempre procurado, primeiro, fazer-me amar ou querer aquilo que ele mesmo tinha disposto para que no dia seguinte eu visse que não tinha ou teria.

Quando eu era criança, meu sonho era ter uma barbie. Meus pais eram pobres e não tinham condições de me dar a boneca. Um dia, vejam só, ganhei uma barbie em um sorteio. Sei lá quantos anos eu tinha, uns 6, talvez. Uma felicidade incrível, até hoje consigo reviver a aquela sensação. Como estávamos em uma festa, minha mãe pegou a barbie e pediu para alguém guardar no bar. No fim da noite, voltamos para buscar e a barbie tinha sumido. Nem sei quem ficou mais triste, quem chorou mais na volta dentro do ônibus, se fui eu ou a minha mãe. Não sei.

E quantas barbies eu já não ganhei e perdi logo em seguida nessa longa estrada da vida?

Você aprende a perder mais do que a ganhar, e acaba achando que a sua vida toda é um Previously on Dawson's Creek. Você se acostuma. Acha que perder é normal. Acha graça. É tudo tão mais fácil quando você aceita.

Hoje eu escrevi em um email:

Por isso é tudo tão fácil aqui. Por isso não dói tanto estar longe. LONGE DO QUÊ?

Saca Bod Dylan.

How does it feel
To be on your own
With no direction home
Like a complete unknown
Like a rolling stone?

LONGE DO QUÊ?

E, ainda bem, passei da fase de achar que a culpa é dos outros. Há a completa consciência do meu erro, das coisas que eu encaro. Aprendi que se você não passa amor, não importa no fim das contas que você ame ou seja capaz de amar. O meu pai não me odiava, eu sei disso, e embora um pouco relutante, até acho que existia amor. Mas no fim das contas, adiantou? Se ele não era capaz de passar esse amor, por que teve filhos? Por que se casou? Por que teve amigos?

Quantas Patricias não estão sendo traumatizadas porque alguém achou que seria uma boa lutar contra a própria natureza?

Só sei que eu não estou afim de lutar contra a minha.

25 comentários :

Amanda A Palhares disse...

Menina, vc tirou do fundo do meu coração este sentimento pela matriz biologica a que chamam de pai.
Muito lindo

vanessa disse...

vou dizer uma coisa: aquele email também me deixou com vontade de escrever um post nessa linha.

minha irmã tava dizendo outro dia "eu só queria ser feliz" e foi aí que eu percebi que eu também.

será que um dia a gente consegue? olhar pro que tem e pensar "é, era isso" e sorrir?

tomara.

B. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Cynthia disse...

Ao ler o post me identifiquei tanto...

Eu tbm queria tanto a barbie...

Esmè disse...

Todos os dias me identifico um pouco com vc, mas hoje foi de uma força que chegou a doer. Um grande beijo para ti, porque qualquer coisa que se diga não alivia mesmo.

Gabriel disse...

Leio sempre o blog pra dar risada. Mas hoje fui pego de surpresa por esse post cheio de referências e sentimentos, digamos... particulares. Muito bom.
Keep going!

Eliana disse...

Nossa! Que post lindo!

Dee disse...

Tão triste e tão verdadeiro.

Carol disse...

lia seus posts porque achava engraçado, então não comentava
mas esse me tocou, me vi escrevendo linha por linha...
espero chegar num dia em que eu fale que não vou lutar contra minha própria natureza também...

Anônimo disse...

muito tocante esse post....espero realmente que você consiga ser feliz...torço por você

Mexican Girl disse...

Sabe Diva, venho sempre visitar seu blog, não em busca de risadas, apenas, mas de sabedoria. Sempre encontro, e esse post mostra bem isso. É sábio de vossa parte não lutar contra quem verdadeiramente és. Mas se pararmos pra pensar, é meio relativo, não ?
Pense bem, é da natureza do ser humano não estar satisfeito com o que tem, nunca, e estar sempre em busca de mais. Isso trás dor, infinitas vezes, mas também amadurecimento e progresso. É caindo muitas vezes que aprendemos a levantar com perfeição, ainda que os ossos não estejam nem mais se remendando. Como diria Vinícius de Moraes : " É um contentamento descontente. " - É, ele estava falando sobre o amor, sobre o que é amar, e ser amado, mas todavia, é aplicável a vida em sí. O que é viver, se não uma aventura constante na qual somos obrigados a nos confrontar, e aos outros, dia após dia ?
A questão que fica é : Prefere não lutar contra a sua natureza pessoal, ou contra a sua natureza humana ?
Pense nisso, e alegre-se. Você é apenas humana, como todos nós.
Com carinho ...

RaphaeL disse...

Incrível!

Visito sempre seu blog, mas se me recordo, comentei apenas uma vez... lá vai a segunda ;-)

Me identifiquei bastante com o Post.
Na verdade minhas ambições foram e continuam sendo tantas, que citar parte do todo seria uma tarefa um tanto difícil.
Dos desejos passados, alguns ficaram destruídos para trás e os vindouros, sofrem a angústia de uma expectativa.

"Você se acostuma. Acha que perder é normal. Acha graça. É tudo tão mais fácil quando você aceita."

Por diversas vezes eu mentalizo essa regra... a de não se importar.
E realmente, deixa tudo mais fácil.
Talvez daí a minha tamanha identificação com tudo o que você escreveu.

Mas como reza "Filtro Solar" - A peleja é longa e no fim é só você contra você mesmo."

Não vale levar tudo isso aqui tão a sério.
Nascemos sem pedir e morremos sem querer - então, aproveitemos o intervalo!
Cada um é perfeito dentro da sua imperfeição. Aliás, é a tal da imperfeição que julgamos ser o nosso obstáculo, o que nos positiva diante dos demais.
A felicidade não depende do que nos falta, mas do bom uso que fazemos do que temos - (e isso não nos impede de ter mais, de buscar mais).

Enfim...
Seus textos além de proporcionar risadas com seu jeito descompromissado de escrever, ajudam em demasia a refletir sobre situações até mesmo já vividas, mas que nem sempre ressaltamos.

Te desejo o melhor!

iaiá disse...

me identifiquei. e chorei. bjs

Larissa disse...

me identifiquei completamente e incrivelmente. Já paarei ora me perguntar: quantas Larissas existem por aí? com seus traumas, com seus dramas.
me identifiquei da primeira à última frase.
e foi tão sincero. tão intenso e verdadeiro.

:)

Mi disse...

Porque tem situações e sentimentos que não mudam e não adianta lutar contra... eu lhe entendo BEM.

Uma '@' estranha acabou de te seguir no twitter, não estranhe pois sou eu :)

۞ Sol disse...

Marquez consegue dizer tudo numa frase. AMO.

Leels disse...

Vamos dar as mãos. É exatamente assim que estou me sentindo. Que bom que não sou só eu.

alinne disse...

pela primeira vez vc, foi vc!




ass linna

Carlinha Salgueiro disse...

Como já li seu blog de cabo a rabo, foi em janeiro qdo estava de férias que descobri o "Te amo, porra". Se lembrar de um Jupiter Hosting no teu Sitemeter, resolução 400X250 aproximadamente, por horas e horas conectado, era eu, de madrugada no xing ling phone lendo teu blog, já na cama.
Então vou pular a parte do pai... Não pense que não tenho sentimentos, mas foi a história da Barbie que me fez escrever este comentário.

Quero dizer que revivi a "emoção da perda da Barbie" lendo aqui hoje. Tipo sensação igual, mas eu tinha 17 anos.

Amava o Angra, teria tarde de autógrafos na Galeria do Rock, e ia começar uma hora antes de eu entrar no trabalho do shopping num sábado a tarde. Fiquei sabendo poucas horas antes. Cheguei lá, fila imensa. Fiz cara de cachorro que caiu da mudança, disse que estava sozinha, uma alma boa deixou eu entrar na sua frente, uma das primeiras.
O André Matos me reconheceu de um show do Aeroanta - perguntar "qual é seu nome mesmo" é lembrar de vc, não?

Um dos dias mais felizes da minha vida, adolescente, com autógrafo do ídolo, sendo lembrada por ele...

Cheguei na porra do trabalho, guardei o CD no armário, feliz espalhei a noticia emocionante da minha vida.

Fui embora as dez da noite, só com o CD, sem o encarte autografado. Fim?


Anos depois, comprei o mesmo CD, fui na tarde de autógrafos do segundo CD e pedi para autografar o primeiro. Aí meu irmão trocou por drogas.

Tenho agora um terceiro primeiro CD, autografado por dois membros da banda que "por acaso" encontrei numa feira de equipamentos musicais. Eu não desisto nunca!

Rafael disse...

Só digo uma coisa: seu blog é perfeito. Me faz morrer de rir sempre, e agora sinto como se nunca estivesse sido tão triste.

Juliana Dias disse...

Patrícia! FORÇA!

Anônimo disse...

Carlinha Salgueiro, vc por aqui?rsrsr
.
Acho q fui eu q apresentei o blog pra Carlinha, se bem me lembro, foi na nossa queridacomunidade, Casa de Chá de sumiço.
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Patrícia, falardaBarbie e de infância pobre, e DE COMO EU QUERIA UMA BARBIE MAIS Q TUDO, é falar de mim... Nossa, quase chorei.
Detalhe: quando meus pais foram ter condições de me dar uma, eu já estava com 12, começando a me desinteressar bor bonecas...Mas tive 3,mesmo q tardiamente...
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Beijo, Janah.

balletdasborboletas disse...

E aí o que se faz??

Estou realmente exausta do famoso "dar com uma mão e tirar com a outra". Assim perdi o homem que amava e agora perdi meu apartamento. Sempre assim, minha felicidade só dura 5 minutos.

Boa sorte para você e todos que comentaram aí em cima se identificando.

Roberta disse...

Puxa Pat.
Q lindo o q vc escreveu.
Nunca imaginei vc diferente.
Sempre vi toda essa sensibilidade em vc, até mesmo nos posts mais simples.
Beijos com carinho

Marina disse...

Caramba. E por acaso a gente se depara com a genialidade de quem nem conhece.
Você ganhou meu respeito.