terça-feira, outubro 20, 2009

sobre a distância e a dor

Um tempo atrás eu falei sobre eu não sentir falta das pessoas, aquela coisa de "a presença dos outros não chega a me incomodar, mas se não tem ninguém, dá no mesmo", mais ou menos isso, com a diferença de que sim, as vezes a presença alheia incomoda. Mesmo a presença alheia de quem se ama. Sei que corro o risco de não ser compreendida, apenas aqueles nascidos com o halo de gelo sabem de fato o que isso significa. Quem nasce assim prefere estar só, e veja que coisa, sempre reclama por ser só. Vivo de uma forma como se eu não precisasse dos outros, e por fim, penso que realmente não preciso, seja nos momentos felizes ou nos tristes, não tenho a necessidade de compartilhar, de fazer parte. Sou daquela estirpe feito a velha senhora do 8° andar, que um dia morre de câncer e veja que surpresa, ninguém sabia que ela tinha câncer. E sabe por quê? Porque não há necessidade. Nada vai mudar se alguém souber. A doença não vai regredir se os outros souberem. E vou seguindo. A infelicidade vem quando precisam de mim, pois só aí eu vejo que não estou só e que devo, assim como todos esperam, fazer parte. A vida existe para isso, para que os conjuntos sejam formados, laços que te carregam até o fim. E eu fico pensando como é engraçado eu escrever tudo isso hoje, a consciência sempre existiu, a dor de não sentir como os outros sempre esteve aqui, por mais que os icebergs não sintam, uma coisa eles sentem: a dor de não sentir como os outros, de não pertencer naturalmente. As vezes a minha consciência prefere acreditar que sinto mais do que os outros, e justamente por essa sobrecarga, prefiro me afastar. Assim sobrevivo. Não sei até que ponto isso pode ser verdade, pode ser que seja uma mentira criada para diminuir o monstro interno - que cada um de nós tem. Termino dizendo a primeira frase que deveria ter dito quando comecei a escrever estas linhas. Dói em mim, mesmo com todo o halo de gelo, não estar perto quando precisam.

16 comentários :

Fabiane Ariello disse...

Uau, Patrícia.

Mais uma vez você conseguiu expressar o que eu sinto melhor do que eu.

Acho que também tenho esse halo de gelo, mas menos capacidade de aceitá-lo. Luto contra ele, tento desesperadamente me convencer de que sim, eu gosto das pessoas, sim, quero "fazer parte"... e isso só me desgasta e me faz mal.

Beijos.

Letícia disse...

poxa, é bem isso mesmo. nem tenho o que falar.. descreveu tão bem o grupo halo de gelo (do qual faço parte tbm).

Sandrine disse...

Pelo jeito fazes mais parte do grupo do que imaginas.
E sei lá, mas eu meique formulei uma teoria: tem gente que sente pra fora, tem gente que sente pra dentro. E é difícil fazer parte do segundo grupo, porque parece que a dor que não é vista e escancarada ninguém entende. Aí a gente acredita que quando nos chamam de frios é que todos estão certos e a gente deve mesmo ser um tipo de alien.
E bora abraçar o cliche, porque "o essencial é invisível aos olhos".

Ana Cecília Pereira disse...

Incrível!

۞ Sol disse...

Você não é um iceberg. Se fosse, não sentiria, mesmo que seja dor. Acho que o que você sente é uma profunda decepção com o ser humano. E pra não se magoar mais, é mais fácil não ter esperanças, aliás, nem se envolver. É pura defesa de um grande coração :D

Fernanda disse...

é... no final das contas, ninguém tá completamente sozinho nesse mundo.

e, sinceramente, não sei se isso é bom ou ruim.


ó, um beijo: =*

Patrícia disse...

Ai,... Te entendo... E como entendo, viu?
E aproveito o comentário p/ inserir um merecido elogio: Vc vem se superando na redação, que texto primoroso! Bravo!
Bjs

Clara disse...

Eu sempre fico imaginando o dia em que todos serão substituídos por neblina e ar, e para mim não fará a menor diferença, não consigo e já cansei a tempos de tentar gostar das pessoas, criar laços com elas, mas todos os laços são rompidos com a facilidade de um toque, e para mim continua sem fazer a menor diferença, tento imaginar como os outros se sentem diante dessa situação, mas não consigo, pois sei que são completamente diferentes de mim, e não há nada que eu possa fazer.

A. Almeida disse...

Parabéns!!
Texto incrível, por mais que digas NÃO de uma sensibilidade admirável. Pô e isso faz parte de cada um...
Beijos.

Mi disse...

Agir assim faz com que a gente sobreviva.

Lua disse...

Bem eu nao tenho o halo de iceberg. Mas cada um sabe o que é melhor pra si e como viver, não sou de julgar as pessoas, mas as vezes faz bem sentir necessidade de pessoas.

Beijos!

Helga disse...

Concordo com a sua xará Patrícia, você se supera a cada texto, seja ele engraçado, sério, o que for.
Vc é uma pessoa maravilhosa, creia nisso.
beijos

guilherme disse...

me sinto terrível quando não posso fazer nada para ajudar quem eu gosto.

mas nunca espero nada das pessoas que eu gosto quando preciso de ajuda.

não sei ser diferente.

Luisa Maria disse...

UAU mesmo! Que texto! Me identifiquei totalmente. Em cada linha escrita. E nas não escritas tb.
Bjs

Lucas disse...

É difícil ter amigos, pois os outros que pensam da mesma forma também não gostam de explicitar isso, pelo menos verbalmente. Mas, pelo pouco que eu li aqui, duvido muito que você não quer fazer parte muito menos que você seja uma pessoa má. A verdade é que os "amigos" decepcionam demais... Enfim, esse comentário ficou uma merda.

Luana Lied Zapata disse...

A história da minha vida.