sexta-feira, março 13, 2009

uma auréola de frieza, um halo de gelo

Eu sei que é difícil me entender. Não vivo esperando que alguém me compreenda, quero deixar isso bem claro, e nem acho que as pessoas são insensíveis por não terem essa compreensão.

Estou aqui, na minha última sexta feira no Rio, arrumando as coisas, separando tudo para fazer a mala amanhã. Estou aqui fazendo isso, enquanto a grande maioria das pessoas estaria aí fazendo uma despedida com amigos, bebendo e vomitando horrores. Já bebi e vomitei o suficiente na minha vida, não preciso de um último dia para enfiar o pé na jaca, o pé já está na jaca há muito tempo.

Aniversários, despedidas, não funcionam comigo porque sempre implicam naquele abraço que deveria ser dado normalmente mas tem uma data. Ou naquele adeus que eu não quero receber, pois no fundo algo meu grita "Eu vou voltar porque aqui, aqui é o meu lugar".

E eu sei que fica essa imagem para as pessoas como se eu não me importasse com elas. E não é verdade. Tanto me importo que não quero dar adeus.

E eu tenho essa coisa de preservar os momentos mais difíceis, então eu acho que no aeroporto só quem deve ir é a minha mãe. Porque é o nosso momento. Não quero tios e primos lá, não quero amigos.

E mais uma vez, fica essa imagem Patricia não nos quer lá. E é tudo tão pesado, tudo tão fora do controle, e eu vou ficando cansada de tentar me desvencilhar dessa imagem. Acaba ficando.

Fernando Pessoa é a minha alma gêmea, embora tenha morrido antes de eu nascer, porque foi o único que escreveu exatamente como eu me sinto, sem tirar uma vírgula:


"Mas a exclusão, que me impus, dos fins e dos movimentos da vida; a ruptura, que procurei, do meu contacto com as coisas levou-me precisamente àquilo a que eu procurava fugir. Eu não queria sentir a vida, nem tocar nas coisas, sabendo, pela experiência do meu temperamento em contágio do mundo, que a sensação da vida era sempre dolorosa para mim. Mas ao evitar esse contacto, isolei-me, e, isolando-me, exacerbei a minha sensibilidade já excessiva. Se fosse possível cortar de todo o contacto com as coisas, bem iria à minha sensibilidade. Mas esse isolamento total não pode realizar-se. Por menos que eu faça, respiro; por menos que aja, movo-me. E, assim, conseguindo exacerbar a minha sensibilidade pelo isolamento, consegui que os factos mínimos, que antes mesmo a mim nada fariam, me ferissem como catástrofes. Errei o método de fuga. Fugi, por um rodeio incómodo, para o mesmo lugar onde estava, com o cansaço da viagem sobre o horror de viver ali.

(...)

Conviver com os outros é uma tortura para mim. E eu tenho os outros em mim. Mesmo longe deles sou forçado ao seu convívio. Sozinho, multidões me cercam. Não tenho para onde fugir a não ser que fuja de mim.

(...)

O prémio natural do meu afastamento da vida foi a incapacidade, que criei nos outros, de sentirem comigo. Em torno a mim há uma auréola de frieza, um halo de gelo que repele os outros. Ainda não consegui não sofrer com a minha solidão. Tão difícil é obter aquela distinção de espírito que permita ao isolamento ser um repouso sem angústia."


Obviamente dá para perceber que a minha fuga das pessoas me incomoda. Não receber aquele abraço me incomoda, não fazer despedidas me incomoda, não querer mais ninguém lá me incomoda. E que, principalmente, eu não consigo viver feliz sendo assim. Só que infelizmente é natural da minha personalidade. Todas as vezes em que tentei lutar contra isso, sofri muito mais.

7 comentários :

Marcelo Araujo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marcelo Araujo disse...

Sofrer com alguém te olhando nos olhos e dizendo que você vai fazer falta? Por mais que a gente saiba que naturalmente a gente VAI fazer falta, nem que seja por simplesmente ocupar algum espaço no mundo ou na vida de alguém, é sempre bom ouvir isso. Concordo que as pessoas deveriam dizer isso em qualquer oportunidade e não só em despedidas. Mas é assim que as pessoas são. Elas só conseguem tirar a armadura e abrir o coração quando elas sentem que estão prestes a ficar sem algo importante. Tô estudando no Canadá há 7 meses e antes de vir, por mais que doesse, me obriguei a me despedir de cada amigo (inclusive aqueles com quem eu estava puto), cada parente (até aqueles que a gente acha que não vão fazer muita falta - mas vão). Primeira vez que eu fiquei sozinho com a minha vó na minha vida. E ela chorou e disse que me amava. Vai saber quando eu ia me dar a oportunidade de ir lá ter um momento à sós com ela e ela sentir a necessidade de me falar uma coisa que soa tão clichê mas que é tão necessária e que vai me marcar pra sempre.
Vou me permitir dar a minha opinião, já que inventaram isso de interatividade. hahaha! Acho que, por mais que você vá pensando em voltar, por maiores que sejam as chances de tudo ser uma merda por lá, deverias se dar uma chance de viver esse momento. Não precisa ser uma despedida tipo "tenho mais 1 dia de vida e quero dizer que te amo" mas pode ser mais um "eu to indo ali na padaria e já volto, mas eu quero que você saiba que eu vou estar pensando em você e que eu vou sentir a sua falta".
Taí! Esse exercício da padaria devia ser feito todos os dias!
Mas até que antes de eu vir eu pensei "vai que meu avião cai". Se cair, caiu. Fodeu do mesmo jeito. Mas pelo menos eu fiz a minha parte: falei tudo que eu tinha pra dizer e ainda dei oportunidade pras pessoas que eu amo falarem o que elas precisavam/queriam.
[Ok. Isso virou um reblog! hahahaahaha!]
Se um dia você simplesmente deletasse o blog, eu sei que uma parte de mim morria junto. Mas eu preferia chorar lendo o post mais triste ever dizendo que é o último, do que chegar aqui um dia e dar "página não encontrada".
beijão!

rafaelnanet disse...

Já me afeiçoei a você e seu blog, gata. Principalmente porque te entendo. Temos quase os mesmos sentimentos. Também não suporto despedidas, mas ao mesmo tempo sinto que se alguém não me disser "Vou sentir sua falta" eu morro.
Gosto de ajudar as pessoas a minha volta, ser necessário para alguém, mas quando sinto que necessito de alguém, me sinto um merda.
Orgulho? Talvez. Já me disseram que sou uma sombra, que quero chamar a atenção, mas isso não é verdade. Basta estar vivo e viver para chamar a atenção.
Quem te conhece sabe pelos teu olhos, e nós pelos seus textos, que você está sofrendo com a despedida. Mas lembre-se de Maria Rita (não creio que vou citar essa música): A hora do encontro é também de despedida. (A letra é legal vai). E esse encontro é o de nós mesmos. Tenho certeza que com toda essa atribulação que você passou nesses últimos meses vocês aprendeu muita coisa, e até encontrou um 'você' que você nem imaginava que existia.
Ok, fiz um outro post XD
Em suma: Vá, divirta-se, cresça e não pare de blogar =*

Ana P. disse...

Eu num tenho nada pra te dizer, pq... eu entendo. Com uma pequena diferença: eu me afeiçoei ao sofrimento.

Por isso sempre me despeço, com longos discursos e abraços infindáveis.

Sempre: mesmo que eu vá encontrar amanhã.

guilherme disse...

Não me lembro da minha despedida de quando migrei pro outro lado do mundo.

Dizer "adeus" pra mim é como dizer "até logo"... Até mesmo porque as despedidas mais difíceis que já tive, foram aquelas em que as pessoas foram embora sem se despedir.

guilherme disse...

Sobre o comentário aí de cima... Esse NÃO é o seu caso, uma vez que eu tenho CERTEZA que ainda te vejo várias vezes... Qdo vc vier de férias, voltar de vez, ou se eu resolver te visitar no MT...

Então não é um adeus, mas um até logo.

Beijos

Sigil disse...

"Aniversários, despedidas, não funcionam comigo porque sempre implicam naquele abraço que deveria ser dado normalmente mas tem uma data."
Eu me sinto assim também. As vezes chega a soar falso um abraço desses e é exatamente isso o que mais dói. Querer sempre sentir esse carinho das pessoas que a gente gosta e isso só acontece nessas pseudo ocasiões especiais.