terça-feira, janeiro 13, 2009

13 de janeiro

Caramba, hoje é dia 13 de janeiro.

Madrugada de 13 de Janeiro.


Quando eu era pequena, sei lá, 7, 8 anos, peguei um livro do meu avô, "Eu e outras poesias", do Augusto dos Anjos. No início foi difícil gostar, acho até que já contei esse meu processo aqui, mas enfim, deu vontade de falar de novo. O Augusto é um poeta muito difícil de gostar, leva tempo, exige esforço, mas no fim você descobre que é belo. E tinha uma poesia que ele fez sobre a morte do pai. Era linda. E todo dia 13 de janeiro eu lembro dessa poesia. Lembro que foi nessa data que o pai do Augusto morreu. Meio mórbido e tal, mas a poesia é muito bonita.

Vou tentar transcrever de cabeça aqui o trecho.

Madrugada de treze de Janeiro
Rezo sonhando o ofício da agonia
Meu pai nessa hora junto a mim morria
Sem um gemido, assim com um cordeiro


O poema completo aqui. A primeira parte é de uma beleza absurda.

Eu tão sem crença e as árvores tão nuas. E o horror de nossas duas mágoas crescendo e se fazendo horrores. E eu fico pensando até quando, até quando vou adiar esse embate na minha vida.

Há coisas que sabemos que devemos fazer, algo como perdoar e conhecer uma parte da nossa vida escondida há muito tempo. Encarar os fatos para seguir em frente. Aquela historinha da vida ser dividida por etapas, se não conseguimos passar por uma delas, a vida pára, estagna, e você não segue. Eu sei que preciso passar por essa porta, perdoar, conhecer o início de tudo para poder me conhecer. Eu simplesmente sei o que deve ser feito (veja bem, isso foi muito difícil saber), mas eu não consigo seguir e não me sinto preparada. Hoje em dia o meu maior medo é que quando eu finalmente resolva vencer esse obstáculo, não haja mais ninguém lá.

Eu preciso ir ao lugar onde se encontra a família do meu pai, preciso conhecê-los (não apenas vê-los, mas conhecê-los), e mesmo sabendo que a morte é o fim, eu preciso ver o túmulo, levar algumas flores, esses velhos hábitos que aprendemos desde cedo e por mais que não concordemos, nos sentimos obrigados a fazer por alguma razão que desconhecemos.

Eu preciso ir, mas falta a força, falta a coragem. Falta tanta coisa.

7 comentários :

raquel disse...

"Deixe-me ir preciso andar,
Vou por aí a procurar,
Rir pra nao chorar.

Quero assistir o sol nascer,
Ver as águas dos rios correr,
Ouvir o pássaros cantar,
Eu quero nascer quero viver..."

lembrei do cartola, lembrei de vc.

Patrícia disse...

Depois que se enfrenta o dragão ele se encolhe todo e vira um gatinho mansinho, é assim com nossos maiores medos. Não digo que é fácil, digo que é possível e é bem provável que seja necessário também: uma catarse dessa magnitude vai desemperrar todas as outras áreas de sua vida, você verá! Dói, e dói prá cacete, pois vc estará lidando com feridas importantes, profundas e reais, mas, MAS, você merece o esforço, Trícia! Boa sorte, menina, que Deus (sem "religiosismo", eu não sou assim...) segure a sua mão! Bem forte!
Abração de admiradora!

guilherme disse...

Há coisas que sabemos que devemos fazer, algo como perdoar e conhecer uma parte da nossa vida escondida há muito tempo. Encarar os fatos para seguir em frente. Aquela historinha da vida ser dividida por etapas, se não conseguimos passar por uma delas, a vida pára, estagna, e você não segue. Eu sei que preciso passar por essa porta, perdoar, conhecer o início de tudo para poder me conhecer. Eu simplesmente sei o que deve ser feito (veja bem, isso foi muito difícil saber), mas eu não consigo seguir e não me sinto preparada. Hoje em dia o meu maior medo é que quando eu finalmente resolva vencer esse obstáculo, não haja mais ninguém lá.

Escreveu a minha vida. Mas eu acho que sou mais pra Dodi do que pra Zé Bob nessa história.

.duas doses de desdém - Gui disse...

Aixi..querida...eu nunca visito o túmulo da minha irmã...nas vezes que eu fui eu me senti pior :(
Mas espero que não seja assim pra vc...
E o livro citado é lindo ^^

bjbj

Arthur Muhlenberg disse...

caraca, li um monte de posts do seu blog. Adorei, vc tem fundamento e estilo. Até os sobre o Big Brother eu curti, mesmo sem ver o programa. Parabens, favoritei geral.

bj
srn

Tati Py disse...

Meu pai morreu há 22 anos.
Fui no enterro, nunca mais voltei.
Ele não está lá. Acho que não faz sentido.

Mas se você não acompanhou o funeral, acho uma boa. Fazer laços (ou pelo menos conhecê-los) taambém pode ser legal.

Fique bem!
Beijos

Ju disse...

Li e achei a última parte de uma beleza absurda. Não conheço esse tipo de amor.