domingo, dezembro 21, 2008

julgamentos

Estava conversando outro dia com o Guilherme e veio a conclusão: como é fácil julgar as pessoas. Fácil e cômodo. Tão melhor assumir uma postura de dono da verdade, "ah, ela é gorda porque não tem força de vontade de emagrecer, né", "ah, com a mãe pagando tudo, eu também não ia querer arrumar um emprego".

E pronto, você resume uma vida inteira em uma frase. Saca aqueles emails de resumo de livros famosos?

Em busca do tempo perdido, Marcel Proust:
"Um rapaz asmático sofre de insônia porque a mãe não lhe dá um beijinho de boa-noite. No dia seguinte (pág. 486. I vol.), come um bolo e escreve um livro. Nessa noite (pág. 1344. VI vol.) tem um ataque de asma porque a namorada (ou namorado?) se recusa a dar-lhe uns beijinhos. Tudo termina num baile (vol. VII) onde estão todos muito velhinhos.

7 livros em cinco linhas.

A mesma coisa é resumir as situações da vida alheia, sem nem ao menos querer saber os motivos que levaram a determinado fim.



Momento Maria la del Barrio SOY YO.

Por exemplo, quase ninguém sabe que em 2002 eu fui morar no interior do estado e acordava 3:30 da manhã, pegava um ônibus de graça e ia pra faculdade no centro do Rio. Chegava às 7:00 e só saia de lá às 17:00. Levava uns 3, 4 reais, e era só isso que eu tinha pra comer, geralmente só dava pra comprar um pastel e uma coca. Isso sem contar que a faculdade cursada não era a minha primeira opção. Que na época do vestibular minha mãe não tinha dinheiro pra pagar cursinho e muito menos faculdade particular.

Que meu pai teve um derrame e ficou em cima de uma cama por 2 anos. E foi morar de novo comigo. E de noite era o meu turno de dar os remédios, e eu acordava nos outros dias também cedo e ele fazia questão da minha presença por tempo integral. Reclamava e gritava, quando eu ia, sei lá, atender o telefone. Usava fraldas e não conseguia comer sozinho.

Emprego? Me diz como eu ia conseguir um emprego nessas condições? Isso foi logo depois do colégio terminar. E aos 19 anos de idade, eu sentia todo o peso do mundo em minhas costas, eu queria jogar, mas perdi a aposta.

Se hoje eu tenho empregada, nesses anos era eu quem limpava uma casa enorme de 3 quartos. Pai doente e mãe com doença de pele sem poder tocar em produtos de limpeza.

Quando meu pai melhorou, a situação em casa ficou insustentável. Entrevado em uma cama, ele era um amor; começou a andar, quis falar grosso. Só que eu não tinha mais 9 anos. Um beijo e um abraço, volta pra sua terra.

Aí seu pai sai de casa, volta para o país dele, com uma passagem comprada pela sua mãe. E você, filha espancada durante anos, é tachada de quê? Filha degenerada. Claro! Que absurdo mandar seu pai embora, agora que ele ficou bom porque você cuidou dele, e ele se volta contra você e te chama de merda e manda você se fuder por reclamar que ele sujou o chão pisando no molhado. Sou uma filha muito má mesmo. Frase incrível que escutei nesse ano: "Eu não faria isso com o meu pai, absurdo o que você fez". Querida, se eu tivesse o seu pai, também não faria isso. E duvido muito que se você tivesse o meu, teria sequer aceitado de volta quando ficou doente. Só lembrando que ele entrou numa cama e saiu andando.

2004 eu volto pra cidade grande. Depressão. Quero trocar de faculdade, mas e a coragem de admitir que devo começar do zero? Me arrasto durante mais dois anos até o estopim da pior fase da depressão: 2006. Minha mãe em Minas, eu sozinha no Rio. Uma vontade absurda de ligar e pedir ela de volta, mas e o medo da minha vó morrer e a minha família me culpar porque minha mãe não estava lá? Cuanto sufrió mi herido corazón.

Três anos que eu poderia ter arrumado um emprego. 2004, 2005, 2006. Sim, poderia. Não sei bem ao certo que tipo de emprego, nunca vi obeso mórbido vendendo nada em loja. Já viu algum gordo da C&A? Na Renner? Já vi gordos no McDonald's e Bob's, no entanto. Eu poderia com esforço ter arrumado um emprego. Admito que sim. Não vou entrar no mérito de "ah, estava em depressão" porque não sou a única desse mundo. Não arrumei porque de fato não precisei, minha mãe pagava as contas.

2007 ela vira e diz "tá na hora de procurar empreguinho, não sou eterna nessa vida". Beleza, tem razão, quero estudar pra concurso, mas preciso de um cursinho. "Ok, eu pago". Nunca escondi de ninguém a minha incapacidade de conseguir as coisas sozinha. Não conseguiria nada se estudasse só, eu preciso sempre de ajuda e o cursinho dava essa ajuda. E daí tirei o ano pra estudar. 2007 sem sair, sem viajar, sem shows, me dediquei integralmente. Só quem estuda pra concurso sabe a brabeira que é. Passei e estou aí pra ser chamada.

Sobre o meu peso, nego tem a incrível capacidade de confundir preguiça com doença. Cara, eu não estou 10 quilos acima do peso, de entrar em uma academia, malhar um pouquinho e pronto, tá aí o projeto verão. Eu sou obesa. Isso é uma doença. Funciona mais ou menos assim: nego tem problemas e desconta em alguma coisa. Oscar Wilde e meu pai descontavam na bebida. Jimi Hendrix e Janis Joplin descontavam nas drogas. Eu desconto na comida. Aí vem a grande questão: adiantou falar para os que já morreram "pára de injetar, aê" ou "pára de beber, véi"? Então onde está o discernimento de pessoas que viram pra mim e falam "você está se destruindo"? Num tem diga? Super novidade. Quer me ajudar, me paga outra cirurgia (hahahahah kill me) ou me interna. Aceito internação de bom grado, nem precisa me amarrar. Mas se você não pode fazer isso, então silencie, melhor coisa que você tem a fazer.

Y a Mucha honra.


Mas pra quê eu escrevi isso tudo? Tão fácil fazer um julgamento rápido e dar a sentença: filhinha da mamãe preguiçosa. Tão mais fácil.

Beijinhos.

20 comentários :

Sandro Aurélio disse...

Caralho, eu to com pena de vc agora cara!

vc é a da foto não é? não é tão gorda assim!

te dar uma dica, mandatodomundo se fuder!

eu tbm posso contar minha história de forma triste, mas eu não quero, sacou? não gosto muito de fazer drama!

beijos, fica bem, viu?

Rê disse...

Meus pais se separaram quando eu tinha 4 anos, daí meu pai se obrigou a cumprir a formalidade de passear comigo de 15 em 15 dias. Me deixava na pracinha e ia pro bar encher a cara, pedi pra minha mãe falar com ele que eu não queria mais e deve ter sido um alívio pra ele tbm. Quando eu tinha 11 anos, ele morreu, não chorei nem fiquei triste, uns anos depois eu me culpei e enlouqueci por não ter chorado, só queria falar com ele uma última vez, mas isso era mais coisa da minha cabeça adolescente anunciando os problemas que estavam por vir.

Eu descontava meus problemas na comida, daí aos 14 anos resolvi fazer uma reviravolta, daí que eu passei a descontar meus problemas na falta de comida e nos exercícios, daí que só mudou a doença, depois vieram outros problemas, depressão, voltei pro desconto em cima da comida, adicionado de uma superprodução de cortisol devido ao stress e ansiedade, daí que há uns meses resolvi tentar resolver esse problema de uma forma racional.

Tá, mas já comprei anfetamina na farmácia que vende coisa sem receita aqui perto, espero que não vá mais longe.

Rê disse...

Ah, e a parte do pai eu contei pq, sei lá, adicionar um segundo nome na lista de pais "não-sagrados".
Vc é visto como filho da puta se não tiver afeto por um pai ou uma mãe, mas isso não é automático, não adianta o cara ser teu pai e ser um encosto na tua vida

Patsy Zombilly disse...

Faça dessa a última vez que você explica sua vida, suas vontades ou seus problemas pros outros. Sério mesmo. Tem muita gente mais preocupada com a vida alheia quando a própria está um caos...
Vou te emprestar minhas respostas/ofensas favoritas:
*Vá se fudê pra lá
*Vá tomar bem no meio do olho do seu cú (tem que ser no meio do olho e tem que ter acento; ênfase)
*Vá para a casa do caralho
Use com carinho :)

Se até pela internet você parece uma pessoa adorável, com problemas e qualidades comuns a todos, quem é que pode julgar você?

beijos babe ;*

Kakau Tendrás disse...

Pena é para os fracos. Não vou sentir pena de você. Vou apenas torcer que as coisas melhorem. Tipos.. que te chamem logo no concurso. Que você ganhe muito dinheiro e faça a cirurga. E que o micareteiro te ame. Já é bom, não é? 2009 tá aí, adoro jogar a responsabilidade pro ano que tá vindo. 2009 te amo, não me decepcione.

Beijos! =*


ps: Sobre o Mundial, de fato deu Manchester.

Patricia C. disse...

Só esclarecendo que EU ESTOU BEM. fiz o post porque vejo julgamentos alheios aos montes. pra não citar outras pessoas, citei casos da minha vida. mas estou bem, hein. não quero ninguém com pena de mim. me chama de filhinha de mamãe e de preguiçosa obesa, mas não tenha pena de mim hahahahah

Sandro Aurélio disse...

Eu não to com pena de vc então, porra!!!! hahahahah

sabe, o sonho do meu pai era q eu estudasse no cefet, me formasse e trabalhasse na Petrobrás.

eu fiquei reprovado dois anos seguidos e fui jubilado de lá, pq eu odiava tudo lá.

comecei a trabalhar 10 horas por dia e hj sou gerente de uma pequena empresa.

Hoje eu sou feliz pq ele tem orgulho de mim, e eu quero que ele tenha sempre

Querida, sempre tem uma solução do outro lado.

Beijos

Manuela disse...

Te admiro, menina. Sérião.

Elô disse...

Tenho acompanhado teu blog há alguns dias, lendo arquivos...
Me identifiquei com tanta coisa! Pai alcoolatra, agressão (contra minha mãe), e principalmente, a incomoda obesidade mórbida. com 21 anos pesei 130 quilos e fui ao fundo do posso da pior forma que vc pode imaginar. Além da depressão. Taxaram de drama, querer chamar atenção. Mas nunca pesnaram que foi uma vida interia de cobranças, comparações, humilhações, e o famoso "vc é gorda pq quer, se esforce". Ter uma irmã modelo, que foi para as passarelas de Milão, ser a amiga gordinha e engraçada. "Vc tem um rostinho lindo, pq não emagrece?". Ninguém emprega um gordo. Ninguém acredita ou confia no gordo. Mas uma pessoa com uma doença é digna de pena, e o gordo não é de alguma forma doente? Dar a volta por cima foi uma atitude dificil, mas com efeitos. Não só dei a cara a tapa, mas o estomago a faca. Ainda é tudo novo, é acordar de um coma de 23 anos. Se tornar "anormal" pra ter uma vida "normal". Sem arrependimentos, mas a novidade me assusta. Não comentei por querer aconselhar, remediar, ou uma tentativa de "força garota, vc consegue". Mas simplesmente pra dizer que entendo vc. E que admiro por muitas coisas. Torço pra que todas as reviravoltas positivas aconteçam, simplesmente por serem necessárias. E elas acontecem.
Boa sorte em tudo, beijão.

guilherme disse...

perfeito o post, como te disse ao vivo, te entendo perfeitamente, as pessoas acreditam que somos tão estruturados quanto elas ou que temos exatamente as mesmas oportunidades que elas possuem.

elas nos julgam a partir delas mesmas, ou do que elas acham, infelizmente não é como elas pensam, se nós fôssemos realmente o que elas pintam, nossas vidas seriam muito mais fáceis.

eu preferia ser o "filinho de papai" que sempre teve tudo na vida e não fez nada com ela, do que ter que encarar os problemas que eu encaro diariamente.

Beijos!

samiemaybe disse...

Julgar, esteriotipar, generalizar, tudo muito mais fácil que conhecer, que se por no lugar do outro, que tentar entender, pelo menos se esforçar pra entender!! Tenhamos fé pq nem todo mundo é assim, espero!! hahaha

Bjos e ameeeei o post!!

Feliz Natal

Ugly Betty disse...

Tô contigo, menina.

Até mesmo porque, nos julgamentos alheios, tenha certeza que eu sou muito pior que você, hahaha.

Mas quer saber? Fodam-se os outros.

É o tal negócio: a galera só vê as pingas que eu bebo, mas fecha os olhos pros tombos que eu levo. Ou algo que o valha.

E... de perto ninguém é normal. Mesmo aqueles que se esforçam!

Um beijo.

Quéroul disse...

problema é que não pode ter sofrimento na vida gente que não vive abaixo da linha da miséria ou que não tenha cara de sofredor. e olhe lá.

tá acima do peso? ah, tem comida, tem grana, não pode reclamar, é culpa sua se vc tem gordurinhas.
tem um blog? porra, tem muita grana e mordomia pra ter um computador.
tem pai, tem mãe? fique feliz, mesmo se eles forem os maiores desgraçados do mundo. tem gente que num tem nenhum, né mesmo?
cuidou de quem precisava? num fez mais q sua obrigação, pessoa.

e assim, num loop eterno de 'sento no meu rabo e vou falar mal da sua vida'.

fique firme. vc sabe o q vc é, o q vc faz. deixa os outros falando sozinhos.

gosto demais do seu blog. li tudo num dia :)
olá!
=*

Maria disse...

Nossa, mas é incrível mesmo...vc relatou muito bem a complexidade das coisas que a gente menospreza em frases terrivelmente limitadas! Vou até me observar mais pra ter muito cuidado antes de generalizar.

'Cada um sabe a alegria e a dor que traz no coração'.

Abraços

.duas doses de desdém - Gui disse...

Vc é uma guerreira, meu bem!! tem gente aí flor que vive uma vida inteira e não tem a experiência de vida e a força que vc tem...
Caga pra esse tipo de gente!
beijo!!

paulinhaonline disse...

Patricia,

Que esta seja a última vez que vc tenha q explicar algo a quem te julga de tal forma.

Porque, seja quem for, se te resume em poucas linhas, é porque pouco (ou nada mesmo) te entende e te merece!

Fica a dica, flor!

Aonde que a gente tem que viver num mundo pra ser julgado por outros, né? Nem rola. Já me machuquei com essas coisas e te digo que é uma merda, como tu bem sabe!

Então, se cuida, vive tua vida que tu faz bem feito!
=)

Beijooos!

Paulera disse...

ótimo texto.
deveria ser usado em cursos de psicologia para entender a subjetividade alheia. ou em aulas de sociologia para expor o estigma.
tá de parabéns.

eu sou (quase) psicólogo, então não tem como eu puxar sardinha pra outro lado, procure um.. Eu tenho meus problemas e procurei o meu.

o mais engraçado é que metade dos alunos de psicologia tem seus vícios também, são loucos, como todo mundo fala e no final das contas estuda 5 anos e não procura um profissional que ajude.

boa sorte. O bom dos vícios, na minha opinião, é tê-los e perdê-los.

Falou o cara que rói unha dos 10 aos 21 (atualmente) :P

allan monteiro da silva disse...

Te amo!! O que importa é viver!

Fernanda disse...

E vc se importa com o que falam de vc? Nego me acha puta mas e daí?

Letícia disse...

eu tbm sou taxada de filhinha de mamãe. e sou mesmo, viu? eu procuro emprego, mas acho? não! não me venha falar que é fácil. me arruma um aí então que aceito. haha odeio isso, a única pessoa que pode me apontar o dedo e falar o que quiser é minha mãe. afinal é ela quem paga minhas contas. o resto vai se foder. *revolts*

agora meo, eu tô com uns 12 kg a mais e minha mãe me trata como se eu fosse obesa. eu só não desenvolvi um distúrbio alimentar porque não sou tão tosca assim, né? haha enfim..