quarta-feira, maio 28, 2008

Maria la del Barrio soy - continuación

É difícil explicar essa viagem, principalmente porque para fazê-la é preciso estar na merda e não ter outras opções, tudo bem que se você perguntar para um boliviano se ele gosta da Bolívia, ele vai dizer que sim, é o lugar onde ele nasceu, onde ele tem raízes. Minhas raízes definitivamente não são do Mato Grosso, acho que a viagem poderia ser boa se eu fosse visitar parentes, ou simplesmente a passeio, mas eu fui para fazer uma prova, trabalhar e morar lá. É um lugar quente, seco, abafado, enfim tudo o que eu já sabia, o que mais dói é saber que eu preciso disso, eu estou descendo no poço, sabe. Pode ser passageiro, mas eu estou vivendo isso agora e pouco me importa se o futuro será melhor, não sou o tipo de pessoa que quando está passando por um momento difícil se apega ao futuro para poder seguir em frente, eu simplesmente me apego a minha força ou no que restar dela. Até porque se eu pensar no futuro, isso com certeza irá piorar a situação. É um dia de cada vez. Não me diga como eu estarei daqui a dez anos, pois se disser, eu não chego até lá.

Não dormi na rodoviária de Cuiabá, mas vou te dizer que seria muito melhor isso ter acontecido e eu pegar um ônibus melhor depois. Acabei pegando um assim que cheguei que era tipo parador da Avenida Brasil, de 5 em 5 minutos parava para subir ou descer alguém, levando em consideração que Tangará da Serra é longe, e que em um trajeto normal e direto demoraria 3 horas e meia, e o motorista fez em 6 horas. Levando em consideração também que foi a pior viagem da minha vida e sentou um ser asqueroso que ficou encostando em mim durante duas horas até eu levantar putíssima e implorar um cara ao lado para trocar de lugar comigo. Pensando agora eu deveria ter levantado antes, mas no início eu ainda achava que ele estava dormindo e encostando sem querer, parecia aquele boneco joão bobo, você dá um soco e ele volta para o mesmo lugar, eu empurrando o merda e ele nada. Acho que esse povo tem uma mentalidade de que mulher viajando sozinha tá é pedindo para ser encoxada. Ninguém fez nada, eu falando alto com o tarado e ninguém pra me defender, um merda desses nasceu de chocadeira, não tem mãe e irmãs, e tomara que nunca tenha uma filha. Enfim, a viagem seguiu com suas mil paradas, eu querendo dormir e não conseguia pois a raiva do tarado ainda era grande.

Teve uma hora que eu desabei, comecei a chorar dentro do ônibus, e pensava a que ponto eu tinha chegado (aquela história de descer no poço e ter a consciência disso). É uma coisa que eu penso claramente: para estar ali eu busquei isso. Busquei ao não traçar metas desde cedo, deixar tudo para depois, ver as pessoas evoluindo e eu no mesmo lugar, sempre levar a vida na maciota (de onde veio esse ditado?). Sei que no meio do choro eu me dei conta do meu cansaço e vi que o choro só piorava a situação, essa de que chorar funciona é furada. Estava cansada e parei de chorar. Estava com sono e não conseguir dormir. Queria voltar para casa e já estava na estrada. Um mundo de possibilidades jogado fora.

Eu escolhi isso.