domingo, outubro 09, 2005

Sobre os erros

É cruel admitir um erro, ninguém deveria ser obrigado a constatar que errou, não falo desses erros idiotas como calçar a meia preta em tênis branco, falo dos erros que comprometem toda uma vida. Alguém que com nove anos ao invés de ir pra escola, fugiu de casa por causa de uma briga e teve que viver nas ruas, prostituiu-se, drogou-se, e lá com 24 anos lembrando daquele dia da partida se deu conta de que a briga com a mãe foi estúpida, que de repente, se não tivesse fugido estaria hoje trabalhando num banco, formado, quem sabe até noivo de uma linda mulher. É a vida que não pode ser reescrita e depois de anos bate na nossa porta a nos jogar na cara o que perdemos, nos dizendo o quanto fomos burros. Alguém que com sete anos não quis fazer balé e piano, e depois se arrependeu tanto, mas tanto, que seria injustiça falar sobre isso. Alguém que teve chances de namorar a menina mais linda, mas que anos antes não quiz aprender a jogar futebol, e no final isso fez a diferença pra conquistar o coração dela. São esses os erros terríveis. Alguém que num almoço de domingo quis buscar uma boneca no quarto, e enquanto todos estavam na sala, ela estava lá no quarto a afagar uma boneca loira quando entra alguém e fecha a porta com o trinco e ela não pode mais sair, jamais poderá sair daquele quarto como entrou. Alguém que num calor de uma discussão fala o que não deveria nunca ser dito, e perde ali, mulher e filhos. Alguém que não deu atenção, alguém que traiu e arrependeu-se amargamente por ter trocado o cara perfeito por uma foda de um dia. Alguém que matou por uma aposta não paga, alguém que teve a juventude jogada numa cela pequena e putrefata. As pessoas erram como se não soubessem que não dá para voltar no tempo, dar uma volta no relógio e mudar tudo. Anos depois a incompetência vem bater na porta com a lista dos nossos erros e com uma outra lista - essa sim, bem mais cruel - de como seríamos se não tivéssemos errado tanto. E nada há que se possa fazer pra mudar.