quarta-feira, março 31, 2004

40 anos do golpe militar

Há 40 anos atrás começava o golpe militar no Brasil, há 40 anos os militares começaram a marchar pela tomada do poder. 31 de março de 1964: essa noite durou duas décadas, duas décadas de ditadura e opressão, duas décadas de assassinatos e torturas. Quando nós pensamos que a primeira eleição direta para presidente após esse período de horror foi em 89, nos damos conta do quanto fomos oprimidos. Enquanto muitos países usufruíam uma liberdade incondicional, nós do Cone sul, amargávamos ditaduras que pareciam sem fim.

O fato de algumas pessoas naquela época terem noção da probabilidade de um golpe ser grande, não diminui o choque e de alguma forma não atenua a visão inesperada das circunstâncias, não importa que essas pessoas tenham uma certa ciência anterior. É inesperado porque é algo fora do contexto normal, um tanto surreal. Quando se elege um presidente e o mesmo é destituído e obrigado a fugir do país é porque algo de errado paira sobre a história. O fato de Jango ter sido o vice na chapa não muda em nada a situação. Muito menos o fato dele ter se aproximado dos comunistas e assim ter assustado a burguesia nacional, aliás, foi esse o motivo do golpe ter ganho tantos simpatizantes. E essa simpatia culminou em um dos acontecimentos mais tristes da história do Brasil: um milhão de pessoas na Marcha da família com Deus pela liberdade, popularmente conhecida como Marcha da Vitória. Uma cena que não deve ser esquecida, pois é o símbolo da ignorância a ser evitada.

O mais degradante é saber que muitos dos torturadores permanecem impunes através de uma anistia bilateral. E é assombroso ver políticos ainda hoje eleitos que apoiaram essa ditadura. A Arena permanece no PFL: Antônio Carlos Magalhães, Maluf, Bolsonaro e tantos outros estão aí como uma sombra de uma ditadura que ainda paira no ar nos remetendo a um passado recente.

Abaixo estão alguns depoimentos sobre o golpe de 64.

Fragmento do documentário Jango, de Silvio Tendler
"Navios americanos foram desviados de vários pontos do Atlântico para a costa brasileira. A esquadra norte-americana recebeu treinamento para a 'Revolução'. Isso foi chamado de operação 'Brother Sam', e incluía entre outras coisas, 4 petroleiros (para garantir combustível caso o movimento sofresse resistência), 6 destroiers (navio de guerra), 1 porta aviões e 24 aviões de combate. E houve um embarque grande de munição que não chegou a ser trazido. Pouco antes da madrugada de 2 de abril toda a operação é desmobilizada quando chega o aviso que os militares já haviam tomado o poder."

O que é isso, companheiro?, de Fernando Gabeira
"Você diz que vai resistir, você parte pra resistir, mas o que você vai fazer, de verdade, é fugir (...) não era apenas o Brasil que estava derrotado. As nossas próprias caras estavam derrotadas e ficariam assim por muitos dias. São aqueles momentos em que se dá o balanço e não se sabe se pára e chora ou se vai ajudar os que ainda não conseguiram escapar."

Prefácio do livro Brasil: Nunca mais, por Paulo Evaristo Arns
"Não há ninguém na terra que consiga descrever a dor de quem viu um ente querido desaparecer atrás das grades da cadeia, sem mesmo poder adivinhar o que lhe aconteceu. O 'desaparecido' transforma-se numa sombra que ao escurecer-se vai encobrindo a última luminosidade da existência terrena."