segunda-feira, novembro 03, 2003

Augusto dos Anjos

Uma das minhas poesias preferidas é Vozes de um túmulo do Augusto dos Anjos. Geralmente a poesia ou o filme ou o livro do qual mais gostamos não é necessariamente o melhor que já vimos ou lemos, e sim, algum que contenha algo de especial, pelo menos é como funciona comigo.

Eu li essa poesia pela primeira vez quando eu tinha 9 anos. O livro Eu e outros poemas pertencia ao meu avô e quando ele morreu toda a sua biblioteca foi para uma sobrinha sua. Eu não sei como aquele livro foi parar lá em casa, talvez ele tenha emprestado para o meu pai. O fato é que eu tinha 9 anos quando li Vozes de um túmulo, e não gostei. Isso mesmo, não gostei, achei horrível, natural para um criança porque Augusto dos Anjos é um poeta difícil e sua poesia não é usual.

Mesmo não gostando, tomei o livro para mim, era o meu primeiro livro de adulto, os meus livros anteriores eram todos infantis. Então eu guardei o livro e um ano depois li a poesia novamente e continuei não gostando, mais um ano depois e aí comecei a ver a poesia com outros olhos. Não sei qual razão, mas o tempo em que eu lia a poesia de a cada vez sempre correspondia ao período de um ano mais ou menos. Com 12 anos passei a gostar do poema e até hoje cada vez que a leio, ela representa algo de sublime, de etéreo para mim. Essa poesia representou a partida do meu avô e o meu amadurecimento ao mesmo tempo.

Espero que gostem da poesia e se por um acaso não gostarem, experimentem ler de novo daqui a um ano, quem sabe Augusto dos Anjos conquiste vocês de pouco em pouco como ele fez comigo.

Vozes de um túmulo
Morri! E a Terra - a mãe comum - o brilho
Destes meus olhos apagou!... Assim
Tântalo, aos reais convivas, num festim,
Serviu as carnes do seu próprio filho!

Por que para este cemitério vim?!
Por quê?! Antes da vida o angusto trilho
Palmilhasse, do que este que palmilho
E que me assombra, porque não tem fim!

No ardor do sonho que o fronema exalta
Construí de orgulho ênea pirâmide alta...
Hoje, porém, que se desmoronou

A pirâmide real do meu orgulho,
Hoje que apenas sou matéria e entulho
Tenho consciência de que nada sou!
Augusto dos Anjos