terça-feira, setembro 06, 2016

Justiça

A série Justiça é na verdade um experimento social do quanto o telespectador aguenta assistir cenas estapafúrdias sem quebrar a TV.

Com certeza a história de segunda é a que mais me irrita, mas Fátima, na terça feira, também não fica atrás. Também pode colocar na mesma conta os episódios de quinta em que jurávamos que a protagonista seria Rose, mas pelo visto não. Maurício, na sexta, é de longe a história com mais ponta solta de todas. Só que o que pega mesmo pra mim é a Elisa e Vicente.

O cara matou a filha dela, ela convida pra subir, dá carona, janta, dá aula pra ele. Daí o assassino diz que Isabela abortou pouco antes, dizendo com todas essas palavras, te juro em nome de mamãe Oxum, "se ela não tivesse abortado, nada disso aconteceria", ou seja, matei, mas a culpa é dela. E . o . que . a . Elisa . faz? Batiza a filha dele.

Eu sou louca em história de perdão, mas não há a menor condição esse roteiro. Nem uma palestra do Freixo e Suplicy sobre direitos humanos feat Encontro de Kardecistas e Budistas ia dar uma galera tão sangue de barata assim.

Revoltadíssima com essa série, a última vez que caí do cavalo assim foi com A regra do jogo.

O segredo da vida é realmente não ter expectativas.

É de cair o cu da bunda.

quarta-feira, agosto 31, 2016

detestaria estar no lugar de quem me venceu

Foi um ano em que escrevi incontáveis textos. Alguns publicados em outra plataforma, outros jamais publicados, mas que eu gosto de ter guardado aqui pra reler lá na frente. De 2014 pra cá (poderia citar 2013, mas foi em 2014 mesmo) deixei de seguir vários amigos. Revirei olhos como nunca antes em vários grupos, em várias conversas ao vivo. Eu que sempre gostei de um bom debate. Trocar ideias etc. Acho mesmo que é um dos momentos cruciais da história em que todo mundo se posiciona e não dá pra dialogar. Fico a pensar se o que sempre deu a liga antes eram os isentões. Hoje com todo mundo escolhendo o seu lado, a batalha é inevitável. Inicialmente pensei que lástima perder a possibilidade do diálogo. Hoje dou de ombros. Exausta e enojada de quem aplaude isso aí. Deleto mesmo. Meu mantra.

Tenho pensado muito em 2018. Feito análises dos cenários. Se chegarmos lá, claro. Dois fortes candidatos emergem. Um é considerado carta fora do baralho por muitos. Coitado de quem acha isso. Outra vem mais forte do que nunca. Será um embate. Então eu volto pro início, em como esse governante eleito, após um golpe parlamentar dois anos antes, irá lidar com um congresso corrupto. Mais desânimo ainda. Não vejo luz, mas também não deixarei de lutar. Descobri que a luta é muito mais por consciência do que pela possibilidade de melhora. Nem sempre o curso da história nos acalma.

Fico com as palavras do Darcy Ribeiro, que foram um acalento nesses dois anos: "Os fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu".

Repetindo. Eu não deixarei de lutar. Apesar deles, amanhã há de ser outro dia. E escrevam. Desmantelados, emergiremos mais fortes.

segunda-feira, agosto 22, 2016

vocês vão ter que me engolir

Nessa olimpíada eu fiquei com dois discursos na cabeça e que são completamente opostos. Um é o discurso da Rafaela Silva, chamada de macaca e vergonha da família em Londres 2012 e que, quando ganha o ouro em 2016, faz um discurso muito duro. Está bem claro ali, ela lembra tudo o que disseram, dedica a medalha à família, e como pra bom entendedor meia palavra basta, o resumo de tudo é o dedo na cara de todo mundo. O segundo discurso é do Diego Hypólito. Chamado de viadinho em qualquer rede social que tenha, massacrado por ter caído em duas olimpíadas passadas e dessa vez quando ganha a prata faz um discurso apaziguador. "Obrigado, Brasil". Que Brasil? O Brasil que te xinga de viadinho? Rafaela e Diego foram para opostos. Confesso que sou mais a vibe da Rafaela, não dedico medalha a quem me escrotizou, mas entendo o Diego. Acho válido também. É o momento dele e se ele não guardou os maus momentos, que bom.

Tudo isso pra pra dizer que no penúltimo e último dia de competições tivemos duas vitórias maravilhosas. Futebol e vôlei masculinos. Neymar e Serginho. Dois discursos também opostos. Uma imagem de facebook chatíssima como todas que tem rolado: o "vão ter que me engolir" x "sou apenas o Sérgio filho da Dona Didi".

Antes é preciso reforçar que o racismo sofrido pela Rafaela e a homofobia sofrida pelo Diego são questões muito maiores do que as desconfianças sofridas por Neymar e Serginho. É preciso reforçar porque as pessoas estão meio burras, então nunca se sabe.

Voltando.

O Neymar não nasceu numa fase muito boa do futebol brasileiro. É meio sozinho mesmo, carrega tudo nas costas, não que o time seja horrível, mas não está ali a altura dele. Sendo ele próprio mundialmente conhecido por ser o terceiro melhor. Quando olhamos para o passado, percebemos a penúria do presente. Tivemos tantos jogadores como o melhor, as gerações também eram mais coesas. Nos prejudica muito o jogador sair daqui pra time B da Turquia, Croácia, Russia, Ucrânia etc. O ideal é ficar aqui ou ir pra Espanha, Itália, Inglaterra. O jogador hoje desponta, precisa de grana e topa o time B da Europa, alguns vão pra China. Não se desenvolvem na Meca do futebol e quando convocados pelo ~trabalho excelente na Ucrânia~ chegam na seleção e passam vergonha. O final dessa análise é imaginar a pressão que o Neymar sofre. É o único jogador de ponta. Pode ser que mais tarde os jogadores falem sobre o piti do Galvão, mas acho mesmo que foi o estopim pra todo mundo ali. Achincalhados em rede nacional. O Tite precisa ir para a Bahia etc. Sempre tem um espírito de porco pra dizer "ah, porra, ganhando milhões, é obrigação ganhar sim". Ih, gente, sinto informar, mas não é não. Neymar não precisa da seleção, se vira muito bem com os milhões do Barcelona, seleção é só dor de cabeça, no máximo dá visibilidade para publicidade nacional, mas sinceramente nem acho que vale o peso.

O Serginho tem 40 anos. É a última olimpíada dele. Fez parte da segunda geração de ouro, mas carrega com ele mais pratas que qualquer outra coisa, se ganhasse a prata no domingo não seria xingado na rua. Mas também pesa a falta de crédito da torcida. Classificado na matemática. Taí. Campeão. Ninguém esperava mesmo. Admiro a humildade sendo o gigante que é, mas não posso deixar de repetir: ele não seria xingado na rua sendo segundo lugar. A pressão sofrida por Neymar, sendo bem mais novo, é muito maior. Nem cabe comparação, por isso acho a montagem de facebook tão ridícula.

Entendo sim o "vão ter que me engolir", entendo sim os xingamentos após o ouro pra torcedor que pagou mil reais na beira do campo e acha que pode tudo. No final do dia, Neymar foi o capitão de uma medalha nunca antes conquistada no país, não está ali pra ser xingado. E quem sabe ele seja mesmo o responsável por reunir na torcida a volta da confiança na seleção. Vocês vão ter que engolir. A medalha está no peito dele.

quinta-feira, junho 23, 2016

mais uma lacuna

Penso não ser fácil gostar dos meus seriados preferidos. Não que não sejam bons, não é isso. É que todas as narrativas começam menores, mas a paixão é despertada em segundos. Não sei explicar.

Tem esses dois seriados, Fringe e Person of interest, que mexeram tanto comigo que eu nem saberia por onde começar. Fringe segue sendo uma lacuna enorme, me apaixonei por Walter Bishop no primeiro segundo e por ele basicamente aguentei as duas primeiras temporadas. Gosto demais da minha relação com a Olivia. Do julgamento equivocado que fiz e de como ela me conquistou aos poucos.

Person of interest acabou essa semana e será outra lacuna. Fomos brindados com 6 personagens maravilhosos. Amei Finch com a missão de tornar o mundo melhor, ele extraía o melhor de todo mundo ali. Amei Reese e a sua eterna submissão diante de todos, o sacrifício diário como destino. Amei Carter sendo a idealização do que devemos ser como seres humanos, e sofri como poucas vezes sofri uma perda em um seriado. Amei Fusco e a guinada que ele deu, de policial corrupto a policial honesto, ele credita Reese, eu credito Carter. Amei Shaw e sua sociopatia, sua incapacidade de se importar, que fez com que ela aguentasse as maiores torturas psicológicas nas mãos dos inimigos, foi um imenso prazer te assistir e eu chorava todas as vezes por você. E, por fim, amei Root, que nos relembrou a maior questão de Fringe: a absolvição. A máquina foi capaz de mudá-la e eu passei longos períodos martelando, como rancorosa que sou, "ela torturou Finch", quando até ele tinha esquecido. Root foi de todos a última a me conquistar, gosto de saber que as pessoas podem mudar e merecem uma segunda chance, embora não aplique na minha vida. Prova de que tenho a aprender muito com seriados.

A parte da máquina falando sobre a memória no momento da morte é super parecido com algo que acredito. Foi a isso que me apeguei quando minha vó morreu. Ser ateu diante da morte de pessoas amadas é conviver com uma dor além: a de saber não existir nada depois. Veja bem, a dor da morte é igual para todos. A diferença é que dentro do luto, para a maioria das pessoas, existe uma esperança. O reencontro com o ente querido. Essa esperança o ateu não tem e na hora da morte é bem complicado processar. Então, na época eu foquei em lembrar os momentos com ela, todo o aprendizado, pensando agora ela era meio Shaw, não chorava por nada, era fria demais, mas foi uma avó maravilhosa e me tratava como neta favorita diante dos quase 30 netos que tinha. A máquina fala sobre viver além na memória de quem fica. É exatamente nisso que acredito.

Obrigada por tudo, Carter, Root, Finch, Reese, Fusco e Shaw.

quinta-feira, maio 26, 2016

que merda ser mulher nesse mundo

Uma vez escutei a história de um estupro coletivo. Já faz tempo. Mas me contaram como foi a emboscada e, claro, "a motivação". A motivação sempre pretende tirar o status de barbárie. Eu escutava perplexa a história e esperando do interlocutor uma opinião sobre aquilo. Porque os detalhes eram contados, mas eu não pesquei ali um julgamento de quem fez. Era só a descrição de um fato. Escutava atenta para perceber uma condenação aos estupradores que nunca veio. No fim da história me passou pela cabeça "será que ele estava lá e participou?". Então indaguei, tremendo de medo da resposta. E o interlocutor foi taxativo. "Não, eu era casado". Eu era casado, por isso não participei do estupro coletivo. Eu choquei tanto que não disse mais nada naquela tarde. Tem uma questão. A gente sempre pensa que o vilão é o outro. Alguém distante. Alguém que já tem a nossa antipatia. Meu interlocutor naquele dia foi alguém a quem eu tinha uma certa admiração e respeito. Alguém do meu convívio. Alguém que muitas pessoas próximas a mim adoram. Depois daquela tarde nunca mais consegui manter uma conversa por mais de 5 minutos, é um desconforto muito grande, sempre saio de perto, evito ir quando sei que ele está lá. E me traz um problema muito sério porque ele de fato é uma pessoa próxima. Hoje lendo sobre outro estupro coletivo, me veio na mente toda aquela conversa. O horror que eu senti. O estuprador, quem apoia o estuprador, quem reforça a cultura do estupro, não é o outro na outra margem do rio, é alguém aqui do nosso lado. Nosso pai, nosso irmão, nosso filho, nosso amigo.

sexta-feira, maio 13, 2016

na corda bamba de sombrinha

Hoje foi a audiência do agressor da minha mãe. E por algumas razões alheias à minha vontade, não pude estar ao lado dela. A audiência foi em Minas. Enfrentamos muitos percalços para chegar até ali. Delegado comprado, inquérito arquivado, um racha irreversível na família. Até o dia que eu denunciei ao Ministério Público e me parece que a coisa andou, se dependêssemos do curso natural de uma delegacia do interior, jamais essa audiência aconteceria. Dói que ela tenha ido sozinha, foi com uma testemunha e teve que aguentar o lado de lá com seus irmãos dando apoio ao agressor. É como se ela estivesse errada em não perdoar, em arrastar a família para essa vergonha que é um processo penal. A acusação é de tentativa de assassinato. Eu nem sei como mensurar o dano que causa em mim tudo isso. Ele consegue tirar todos os sentimentos bons que eu tenho, só fica o buraco. Não consegui ler muita coisa sobre o golpe de ontem pra cá por isso, mas por alto li alguma coisa. E o que mais me pegou é a questão da mulher. O papel que nos cabe nesse mundo de merda. Tenho um mantra que sempre me apego em momentos assim. "Vai melhorar". Eu sei que vai. Mas também sei que está longe. Penso em todas as coisas que ela foi obrigada a presenciar, as cenas que foi obrigada a passar. Essa família é a pior coisa que existe. Então entro no facebook dele. Volta e meia entro pra me martirizar. Evangélico, pró golpe, a favor da família etc. Todos os clichês reunidos. E começo a ter raiva de qualquer pessoa que tenha o discurso parecido. Hoje quase saí do grupo de amigos (não o show de horrores, o de amigos mesmo). Respirei fundo e pensei nas consequências. Engoli mais essa. Hoje eu lembrei que também é dia dos pretos velhos, lembrei da minha infância com Vovó Maria Conga, fechei os olhos e pedi ajuda pra minha mãe. Só pra ela. Eu não posso pedir pra mim. Ontem me mantive forte até onde deu. Quando ela foi se despedir, desabei. Foi tudo bem patético. Coitada mais uma vez. Quem precisava de apoio era ela, no final ela quem tava dizendo que ia dar tudo certo e pra eu ficar bem. Eu tive vergonha das lágrimas no momento em que elas escorriam, mas não teve muito jeito, não conseguia parar. Tentei. Ela me liga da rodoviária. Adivinha quem esta aqui? Era a irmã dela. Indo pra Minas dar apoio ao agressor. Tudo que ela teve que aguentar. Choro mais uma vez. É só o que tenho feito desde ontem. Vamos esperar o resultado da audiência. Ela saiu tranquila de lá. Eu estou na merda, mas ela está bem, isso que importa.

sábado, maio 07, 2016

dicona pra quem tá na merda

Como dito anteriormente, não estou na melhor fase da minha vida. Está longe de ser um 2006, até porque aprendi a lidar com as rasteiras da vida, mas também está muito longe de ser bom. 

Dias desses, vendo todo mundo falar de Unbreakable Kimmy Schmidt, decidi ver. É um seriado da Netflix. Tá na segunda temporada, então pra muita gente a dica é velha, mas direciono minha dica a pessoas que assim como eu, detestam comédia, mas estão na fossa e precisam de um respiro.

Acho tão levinho, 20 minutos de episódio, não chego a gargalhar, mas dou aqueles sorrisinhos que fazem a vida ficar menos pesada. Em outros tempos, assistiria o piloto do seriado e odiaria pela idiotice, mas na atual fase não ando tendo muito critério.

Tenho orgulho de assistir? Não. Estou queimando minha língua, pois odeio comédia? Sim. Porém. O mais importante. Tem me salvado? Tem me salvado sim.

Amores que me ajudam a contar até 10 antes de surtar.

domingo, maio 01, 2016

look do dia

Tava aqui acompanhando o snapchat do David Brazil (gagalynda24, sigam, melhor snap da vida) e estou falecendo que ele foi de preto num centro de candomblé. Não sabia e nem foi avisado por Trukeira que esse não era o look correto.

Lembrei de uma vez que o Allan me fez passar por isso. Fomos num centro budista esotérico e essa cor é proibidíssima por lá. Allan nem pra me avisar. Quando cheguei ele tentou disfarçar, mas não deu né. As pessoas passavam por mim super putas e perguntavam QUEM TE TROUXE? 

Momentos.

quinta-feira, abril 28, 2016

fiscal da militância alheia

Uma coisa que eu tenho curtido demais acompanhar é o fiscal da militância alheia.

Pode reparar. Toda vez que surge um assunto que envolva direta ou indiretamente um grupo, aparece um avulso pra comentar "e aí, o que as feministas tem pra dizer hein?". Note que o avulso não está interessado em conhecer uma causa, ouvir as pessoas dessa causa etc. A pergunta é retórica. E os avulsos também querem, com sua magnanimidade, nos auxiliar com seus ideais de militância. Eles nos apontam modelos a serem seguidos, que nós, seres longe da luz, não somos capazes de enxergar. 

Daí vem a alusão ao "por que você não é igual ao meu vizinho gay que ninguém sabe que é gay, precisa ser desse jeito afeminado?" ou "pra que ir pra marcha das vadias, que nome horroroso, isso não representa minha esposa" etc. 

Outra coisa maravilhosa é quem exige nota de repúdio.

Acompanhando aqui com interesse as opiniões dos fiscais.

segunda-feira, abril 25, 2016

gente que é o corretor do word na vida real: parem

Uma coisa que me tira do sério depois que comecei a fazer letras: babaca que corrige erro de ortografia. Não relaxam, não curtem a história.

Exemplo. Tava aqui lendo o cartaz da síndica no FB que reclamou da orgia no prédio. É maravilhoso. O babacão, no lugar de gargalhar como qualquer ser humano normal com a história, comenta sobre erro de ortografia no cartaz. PUTA QUE PARIU, AMIGO. Aprenda a curtir o momento, o cartaz é sobre a síndica reclamando de condômino que fez orgia na piscina com 3 casais, aqui não é redação de concurso público não.

Daí volta e meia leio pessoas dizendo que dispensam no tinder, pois "deus me livre sair com quem escreve encino".

Vocês acham realmente que são melhores que os outros porque escrevem de acordo com a norma padrão? Aliás, você acham realmente que estão isentos de erros ortográficos? É tipo um troféu?

Amigo, você nada mais fala do que um latim vulgar. Um abraço e boa noite.

terça-feira, abril 19, 2016

bob

Amo Kim Chi e Chi Chi DeVayne, mas saber que Bob já foi presa de drag queen por protestar pelo casamento igualitário me deu aquela certeza básica: é a minha favorita.

Maravilhosa!

domingo, abril 17, 2016

las nietas

Cada dia que passa tenho mais certeza de que não há nada na vida que a religião não tenha tentado destruir. Todo mundo se fecha no assunto da política hoje, não falo sobre o resultado da votação, mas sobre a grande maioria dos discursos feitos num congresso nacional, cujo país tem a laicidade na constituição. Deus (somente o cristão) e a família (somente a heteronormativa) sendo citados como arma. Posso falar que em alguns discursos mais pesados, dá um nó na garganta, um desespero de viver na mesma época que essas pessoas. Mas também bate uma esperança quando olho pra história. Se cheguei até aqui é porque outras pessoas resistiram antes de mim. Os fanáticos religiosos passam, nós ficamos. Eles morrem e mais de nós nascemos a cada dia. O nome disso é resistência. E como nós sabemos resistir! Isso me conforta.

sábado, abril 16, 2016

que fase

Não tenho esperanças sobre a votação no domingo. O Pontual, da globo, foi muito criticado ao dizer que o impeachment não precisa ter base criminal, mas sim política. Dilma perdeu o apoio do congresso e precisa sair. Palavras dele. Acho que disse o óbvio de como as coisas funcionam, não é o que eu ou a bolha pensamos sobre democracia, mas é o que a maioria acha. É claro que passa a ser relevante. Eu tenho analisado os cenários. Na eleição passada quis muito essa vitória, mas dado a crise mundial que o brasileiro pensa ser local, adoraria ver o Aécio ou a Marina segurando essa marimba. Se o impeachment não passar no domingo (o que acho pouco provável), outros pedidos serão acatados pelo Cunha e outras votações serão convocadas. Até Dilma sair. Só não sei se passa no Senado, mas o desgaste de um afastamento é enorme. A oposição não sossega enquanto ela não cair. Não existe governabilidade desde que Dilma assumiu o segundo mandato. Um pedido de impeachment baseado em pedaladas fiscais e, que sequer há consenso no STF de ser um crime de responsabilidade, é a única arma palpável da oposição. Cada vez que o crime de responsabilidade é questionado, os chavões aparecem. "Golpe é destruir o país" . Eu entendo quem não vai pra rua para defender o governo, o que acho puxado é o chavão, porque tira a possibilidade do diálogo. Dilma e o PT viraram uma espécie de Voldemort que precisa ser abatido para a vida seguir bela como antes (bela pra quem?). Eu poderia falar o quanto desse ódio é motivado pelas conquistas sociais, mas não é só isso, claro. Não dá pra situação martelar nessa tecla, se temos n questionamentos: Belo Monte, direitos das mulheres rifados em troca de apoio, ex diretor de manicômio como coordenador da política de saúde mental etc. Entretanto, assusta ver o pmdb passar incólume a tudo, assusta a bancada evangélica, assusta Cunha ainda estar na presidência da Câmara, assusta sobretudo o nosso congresso. Pontual, criticado, disse, repito, o óbvio. O processo é político. Isso também é uma visão de democracias recentes. Talvez faça parte mesmo de uma evolução, para que sirva de lição lá na frente, caso alguém olhe para trás e passe a ponderar que uma democracia não se constrói dessa forma. Enfim. Nunca pensei que viraríamos uma Argentina. Viramos uma Argentina.

quinta-feira, abril 07, 2016

chi chi devayne



Eu não acho que é fácil amar a Chi Chi DeVayne. Veja bem. É super fácil amar a Kim Chi e a Bob.  A primeira é uma fofa e traz algo novo para o show, a segunda está pronta como drag. Posso dizer também que é fácil amar uma Acid Betty, pois taí uma artista incrível. Quem curte drags modelos (eu detesto), pode torcer pra uma Naomi Smalls ou uma Derrick e por aí vai. Cada uma ali tem um chamariz.

A Chi Chi é a drag com as piores roupas, as piores perucas, o pior make e, meu deus, sem unhas postiças, mas puta que pariu, que talento. Então tem a Visage gongando o corpo quadrado e a Chi Chi, "gata, não tenho grana pra comprar corselet, eu sou fudida". Tem o discurso de defesa da Visage que foi bem desnecessário. Não entendo muito até onde o programa ajuda com o figurino, mas tá bem claro o quanto a Chi Chi começa atrás e acho maravilhoso o quanto ela consegue fazer o jogo virar em cena. Imagina se ela tivesse todo o arsenal das outras drags.

Meu top:
1) Kim Chi
2) Bob The Drag Queen
3) Chi Chi DeVayne

Esse post foi só pra deixar registrado. Chi Chi tá ganhando muito espaço no meu coração.

P.s: Esse post tem um post irmão. Gil escreveu maravilhosamente bem sobre o assunto.

terça-feira, março 08, 2016

a favorita

Ele bradou na aldeia
Bradou na cachoeira
Em noite de luar
No alto da pedreira
Vai fazer justiça
Pra nos ajudar

A eliminação mais dolorosa foi a da Elenita, no BBB 10. Fui rever uns posts da época e lembro que no post da primeira impressão fui taxativa: chata. Ela sai com essa pecha, né. De chata. E hoje eu li um comentário no facebook "não sou eu que sou chata, é você que é só escroto mesmo". Elenita foi tão escrotizada naquela edição, por diversas pessoas, Eliéser, Lia, Anamara, Dicésar, Dourado, o paredão da sua eliminação é justamente contra duas adversárias, Lia e Anamara, que usavam gorda como xingamento diariamente. Ela é a underdog que vai para o paredão com as duas populares. E perde sem surpresa alguma. Todos saíram amados, ela saiu como a chata. Doeu demais porque obviamente me vi ali.

Lembro que quando ela saiu, me veio quase instantaneamente "será ela a minha favorita de todos os tempos?", até então era o Jean Wyllys, seguido de perto por Fanizinha, achei que deveria esperar para fazer essa declaração, a emoção sempre estraga tudo. Tempos depois pensei novamente no assunto. Elenita tinha se tornado, de todas as pessoas, a minha favorita.

Ano passado, com talvez a pior edição desde BBB 6, achei que o formato estava esgotado. Quem pisava num BBB já pisava atuando. E é aquela coisa, se for pra ver atuação eu vejo novela, teatro, cinema. Eu quero ver gente de verdade em reality show, quero que a encenação exista como meio de jogo, de manipulação, não como meio de realmente acreditar ser outra pessoa. O bode que me deu o BBB 15 foi enorme.

Então veio o BBB 16, veio a Ana Paula. Vou lembrando de cenas inteiras.

Ela dizendo que era machista, ela fazendo amizade (porque queria pegar rs) com Daniel. E tem a virada, pelo menos pra mim, que é no dia que o Ronan tenta manipular a votação do quarto com Cuércio. Munik e Juliana estavam com fogo no cu, putíssimas (com razão), Ana Paula, que até então era amiga da Macholândia, não hesitou na frente das meninas "Eu voto com vocês, é só me dizer o nome, eu voto". Pá. Ela deve ser filha de Xangô também, né. Não pode ver uma injustiça. Meu coração sorriu. Naquela altura a minha favorita da edição poderia ser Munik ou Juliana, que organizaram o levante, ali, pra mim, foi Ana Paula. Desde a primeira semana. Não hesitou em desfazer os laços com quem quer que fosse.

Dias depois, vendo Ronan isolado, não hesitou em pegar ele pelo braço e trazer de volta pra casa. Todo mundo merece uma segunda chance.

Acho que isso define a Ana Paula. Não hesitar. Quando todo mundo está na vibe:
Mas o que vão pensar de mim?
Mas e as consequências?
Vou me queimar com o público?
Como será amanhã?

Ela, nada. 

Vem a briga com o Cuércio. E só quem viu a festa pode opinar sobre a cena clássica TEM UM VELHO NOJENTO DE CUECA NO MEU QUARTO.

Todas as outras brigas. A fama que ela carrega de ser barraqueira, quando Alemão fez igual e só porque era um homem foi chamado de justiceiro. Ela, barraqueira. E se for puxar as brigas, as maiores quem puxou foi Renan.

Chamou pra si todos os paredões que conseguiu. A conversa do trio era sempre "com quem de lá que nós vamos?", a conversa dos patetas era sempre "vamos colocar dois de lá no paredão". Isso define toda a edição.

A expulsão dela foi um baque, mas como ela mesma disse, "não tinha como ser diferente". E me vem uma paz saber que hoje ela está bem. Gosto tanto que me conforta isso. Choro junto toda vez que ela chora no Snap. Choro e penso em tanta coisa, em cada entrevista "não tinha como ser diferente". São as consequências de ser quem somos. A consequência de quem dá a cara a tapa a todo momento. Num mundo de semideuses, ser alguém que não tem medo de falhar é algo raro. Não teve medo de se posicionar e acho mesmo que na vida a gente tem que tomar partido sempre. O muro não foi feito pra ela.

Esse também é um post de despedida do BBB. Nada mais nessa edição tem cor pra mim. Hoje repito a mesma história da Elenita, vou deixar para depois saber se Ana Paula é a minha favorita de todos os tempos. Só fica aqui o meu agradecimento por ela ser um raio de luz numa fase tão difícil da minha vida.

Obrigada.